<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708</id><updated>2011-07-07T19:28:32.024-03:00</updated><category term='A ESFINGE SEM SEGREDOS'/><category term='O MODELO MILIONARIO'/><category term='O GIGANTE EGOÍSTA'/><category term='O ROUXINOL E A ROSA'/><category term='O AMIGO DEDICADO'/><category term='AMIZADE'/><category term='A DONZELA E O FANTASMA'/><category term='POESIA'/><category term='O FILHO DA ESTRELA'/><category term='O NOTAVEL FOGUETE'/><category term='BIOGRAFIA'/><category term='AMIGOS'/><title type='text'>OSCAR WILDE</title><subtitle type='html'>OSCAR WILDE, FRASES, POEMAS, BIOGRAFIA E CONTOS. RETRATO DE DORIAN GRAY E FANTASMA DE CANTERVILLE</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>17</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-3876293804727206499</id><published>2010-07-20T16:10:00.001-03:00</published><updated>2010-07-20T16:12:43.224-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='POESIA'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='AMIZADE'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='AMIGOS'/><title type='text'>Loucos e Santos - Oscar Wilde</title><content type='html'>Loucos e Santos - Oscar Wilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deles não quero resposta, quero meu avesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para isso, só sendo louco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero amigos adultos nem chatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero-os metade infância e outra metade velhice!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho amigos para saber quem eu sou&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-3876293804727206499?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/3876293804727206499/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2010/07/loucos-e-santos-oscar-wilde.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/3876293804727206499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/3876293804727206499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2010/07/loucos-e-santos-oscar-wilde.html' title='Loucos e Santos - Oscar Wilde'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-3278877108527132794</id><published>2009-07-17T14:57:00.000-03:00</published><updated>2009-07-17T14:58:09.187-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='BIOGRAFIA'/><title type='text'>OSCAR WILDE - OBRA E BIOGRAFIA</title><content type='html'>A OBRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wilde foi grande porque conseguiu escrever para todos as formas de expressão em palavras, embora tenha sido menos conhecido em algumas delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde trata da arte, da vaidade e das manipulações humanas. Aliás, é considerado por muitos de seus leitores, como a maior obra-prima, sendo rica em diálogos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em novelas escritas por ele, como a maioria de todos seus escritos, Wilde criticava o patriotismo da sociedade. Isso fica claro na novela O Fantasma de Canterville.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seus contos infantis sempre tratou da criança que vive em cada um de nós, com lições de moral na mais bela e pura forma com linguagens simples. O Filho da Estrela (ver em Ligações Externas), é exemplo disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No teatro, escreveu nove dramas, que inclusive fizeram sucesso na época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Wilde poeta usou a poesia simplesmente talvez para ampliar a sensibilidade para as artes, embora não seja muito conhecido nesse campo. É recomendado ler Rosa Mystica, Flores de Ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cronologia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * 1874- Ganha a medalha de Ouro de Berkeley por seu trabalho em grego sobre os poetas helenos no Trinity College.&lt;br /&gt;    * 1876- Ganha o prêmio em literatura grega e latina, no Magdalen College. Publica a primeira poesia, versão de uma passagem de As Nuvens de Aristófanes, intitulada O coro das Virgens das Nuvens.&lt;br /&gt;    * 1878- Ganha o prêmio Newizgate, com seu poema Ravenna, escrito em março desse ano.&lt;br /&gt;    * 1879- Phèdre, sob o título A Sara Bernhardt, é publicado no The Word.&lt;br /&gt;    * 1880- Escreve o drama em cinco atos Vera, ou Os Niilistas, sobre o niilismo na Rússia.&lt;br /&gt;    * 1881- Publica em julho a primeira edição de Poemas, coligidos por David Bogue.&lt;br /&gt;    * 1883- Em Paris termina sua tragédia A Duquesa de Pádua.&lt;br /&gt;    * 1887-89- Trabalha como editor de The Woman's World.&lt;br /&gt;    * 1888- Publica O Príncipe Feliz e Outras Histórias, contos de fadas.&lt;br /&gt;    * 1889- Publica O Retrato do Sr. W.H., baseado no mistério criado em torno do protagonista e do autor dos Sonetos de Shakespeare, sendo recebido de forma hostil pela crítica.&lt;br /&gt;    * 1890- A primeira versão de O Retrato de Dorian Gray é publicada no Lippincott's Monthly Magazine.&lt;br /&gt;    * 1891- O ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo é publicado no The Fortnightly Review. Publica a versão revisada de O Retrato de Dorian Gray. Também publica Intentions, Lord Arthur Savile's Crime and Other Stories e A house of Pomegranates.&lt;br /&gt;    * 1892- Estréia com grande sucesso no St. James Theatre, de Londres, O Leque de Lady Windermere. Sarah Bernhardt ensaia em Londres Salomé, peça em um ato escrita em francês, sobre a morte de São João Batista, cuja estréia, à última hora, é proibida por apresentar personagens bíblicos.&lt;br /&gt;    * 1893- Salomé é bem recebida quando produzida em Paris e Berlim. Uma mulher sem importância é montada em Londres, também com êxito, e O Leque de Lady Windermere é publicado.&lt;br /&gt;    * 1894- Edição de Salomé em Londres, com ilustrações do desenhista Audrey Bearsdley. Publica Uma Mulher sem importância e o poema A Esfinge que não obteve sucesso.&lt;br /&gt;    * 1895- As peças Um marido ideal e A Importância de ser fervoroso são montadas em Londres com êxito total. Em 27 de maio deste ano Oscar Wilde é preso, primeiro na Prisão de Pentoville, depois na de Wandsworth. Ainda em maio, o ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo é publicado em livro. A 13 de novembro é transferido para a Prisão de Reading, na cidade do mesmo nome, onde ficará até o final da sentença.&lt;br /&gt;    * 1896- Salomé é representada em Paris, tendo Sarah Bernhardt no papel principal. Em 7 de julho é executado na Prisão de Reading o ex-sargento Charles T. Woolridge, cuja morte inspira Oscar Wilde ao seu maravilhoso poema A Balada do Cárcere de Reading.&lt;br /&gt;    * 1897- Ainda na prisão, Oscar Wilde escreve De Profundis, uma longa carta a Lorde Douglas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai da Prisão e em 28 de maio, aparece no Daily Chronicle, a primeira carta sobre o regime penitenciário britânico, sob o título O Caso do Guarda Martin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * 1898- Publica A Balada do Cárcere de Reading e escreve outra longa carta ao Daily Chronicle sobre as condições carcerárias.&lt;br /&gt;    * 1899- A Importância de Ser Fervoroso e Um marido ideal são publicados em livro.&lt;br /&gt;    * 1900- Em 30 de novembro morre Oscar Wilde vítima de meningite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-3278877108527132794?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/3278877108527132794/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/07/oscar-wilde-obra-e-biografia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/3278877108527132794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/3278877108527132794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/07/oscar-wilde-obra-e-biografia.html' title='OSCAR WILDE - OBRA E BIOGRAFIA'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-1516255286989090194</id><published>2009-01-27T23:40:00.002-02:00</published><updated>2009-01-27T23:41:14.363-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O ROUXINOL E A ROSA'/><title type='text'>O ROUXINOL E A ROSA</title><content type='html'>O ROUXINOL E A ROSA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas - lastimou-se o jovem Estudante -, porém em todo o meu jardim não existe uma única rosa vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De seu ninho no grande carvalho o Rouxinol ouviu-o, olhou por entre as folhagens e ficou pensando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem uma única rosa vermelha em todo meu jardim! - chorou o Estudante, e seus lindos olhos ficaram marejados de lágrimas. - Ai, como a felicidade depende de pequenas coisas! Já li tudo que escreveram os homens mas sábios, conheço todos os segredos da filosofia, mas por falta de uma rosa vermelha minha vida esta desgraçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Finalmente encontro um verdadeiro amante - disse o Rouxinol. - Tenho cantado esse ser noite após noite, mesmo sem conhecê-lo: noite após noite contei sua história às estrelas, e só agora o encontrei. Seus cabelos são escuros como a flor de jacinto, e seus lábios rubros como a rosa de seus desejos, porém a paixão tornou seu rosto pálido como marfim e a tristeza selou sua testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Príncipe dá um baile amanhã à noite - murmurou o jovem Estudante -, e o meu amor estará entre os presentes. Se eu lhe levar uma rosa vermelha ela dançará comigo até de madrugada. Se eu lhe der uma rosa vermelha eu a terei em meus braços, e ela deitará sua cabeça sobre o meu ombro, com sua mão presa na minha. Mas não há uma única rosa vermelha em meu jardim, de modo que ficarei abandonado em meu lugar e ela há de passar por mim. Ela nem irá me notar, e meu coração ficará partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aí está, de fato, um verdadeiro amante - disse o Rouxinol. - Ele sofre tudo o que eu canto: o que é alegria em mim, para ele é dor. Sem dúvida o amor é uma coisa maravilhosa. Ele é mais precioso do que a esmeralda e mais refinado que a opala. Nem pérolas e nem granadas podem comprar, e nem é ele exposto nos mercados. Ninguém pode comprá-lo de mercadores, nem pode ser pesadonas balanças feitas para pesar ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- os músicos vão ficar em sua galeria - disse o jovem Estudante. - Tocarão seus instrumentos de cordas, e o meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Ela irá dançar com tal leveza que seus pés nem tocarão o chão, e os cortesãos, com suas roupas alegres, ficarão amontoados em volta dela. Porém comigo ela não irá dançar, porque não lhe dei um rosa vermelha - e atirou-se na relva, enterrou o rosto entre as mãos, e chorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que é que ele esta chorando? - perguntou o Lagartinho Verde, ao passar por ele com o rabinho empinado par ao ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que será? - disse a Borboleta, que estava esvoaçando atrás de um raio de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É mesmo, por que será? - sussurrou uma Margarida a seu vizinho, com uma voz suave e baixinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está chorando por uma rosa vermelha - disse o Rouxinol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Rouxinol compreendeu o segredo da tristeza do Estudante, e ficou em silêncio debaixo do carvalho, pensando sobre o mistério do Amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repentinamente ele abriu as asas para voar e subiu para os ares, passando pelo bosque como uma sombra e, como uma sombra, deslizar através do jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem no centro do gramado havia uma linda Roseira e, ao vê-la, o Rouxinol voou para ela e pousou em um ramo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Dê-me uma rosa vermelha - exclamou ele - que eu lhe cantarei minha mais doce canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a roseira não estava interessada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minhas rosas são brancas - respondeu. - Brancas como a espuma do mar, e mais brancas do que a neve das montanhas. Mas vá até minha irmã que cresce junto ao relógio de sol, que talvez ela lhe dê o que quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então o Rouxinol voou para a Roseira que crescia ao lado do velho relógio de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se você me der uma rosa vermelha - gritou ele -, eu canto para você minha mais doce canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Roseira sacudiu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minhas rosas são amarelas - respondeu ela -, tão amarelas quanto os cabelos da sereia em um trono de âmbar, e mais amarelas do que os junquilhos que florescem no campo do ceifador aparecer com sua foice. Mas pode ir até a minha irmã que cresce debaixo da janela do Estudante, que talvez ela lhe dê o que está procurando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então o Rouxinol voou até a Roseira que crescia debaixo da janela do Estudante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se você me der uma rosa vermelha - gritou ele -, eu canto para você minha mais doce canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Roseira sacudiu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas rosas são vermelhas - respondeu ela -, vermelhas como os pés da bomba e mais vermelhas do que os grandes leques de coral que abanam sem parar nas cavernas do oceano. Mas o inverno congelou minhas veias, a geada cortou meus botões, a tempestade quebrou meus galhos, e não terei uma só rosa este ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu só quero uma rosa - gritou o Rouxinol. - Apenas um rosa vermelha! Não haverá nenhum jeito de consegui-la?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só há um - respondeu a Roseira -, mas é tão terrível que não ouso contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode contar - disse o Rouxinol -, eu não tenho medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se quiser uma rosa vermelha - disse a Roseira -. você terá de construí-la de música ao luar, tingindo-a com o sangue do seu próprio coração. Terá de cantar para mim com seu peito de encontro a um espinho. Terá de cantar para mim a noite inteira, e o espinho terá de furar o seu coração, e o sangue que o mantém vivo terá de correr para minhas veias, transformando-se em meu sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A morte é um preço alto para se pagar por uma rosa vermelha - exclamou o Rouxinol -, e a Vida é muito cara a todos. É tão agradável ficar parado no bosque verde, olhar o Sol em seu carro de ouro, e Lua em seu carro de pérolas. Doce é o perfume do pilriteiro, doces são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que balançam nas colinas. No entanto, o Amor é melhor do que a Vida, e o que é o coração de um passarinho comparado como o coração de um homem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, ele abriu as asas e lançou vôo para os ares. Passou célebre sobre o jardim e como uma sombra deslizou pelo bosque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem Estudante ainda estava deitado na relva, onde ele o havia deixado, e as lágrimas nem haviam secado de seu lindo rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique contente - canto-lhe o Rouxinol - fique contente. Você terá sua rosa vermelha. Eu a construirei com minha música ao luar, tingindo-a com o sangue do meu próprio coração. E só o que peço em troca é que você seja um amante fiel e verdadeiro, pois o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora ela seja sábia, e mais poderoso do que o Poder, embora este seja poderoso. Cor das chamas são suas asas, e cor das chamas é o seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, seu hálito como o incenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Estudante olhou para o alto e ouviu, mas não compreendeu o que o Rouxinol dizia, porque só conhecia as coisas quem vêm escritas nos livros. Mas o Carvalho compreendeu e ficou triste, porque gostava muito do Rouxinol, cuja família tinha ninho em seus ramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cante-me uma última canção - sussurrou ele -,vou sentir-me tão só quando você se for.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o Rouxinol cantou par ao Carvalho, e sua voz parecia a água quando sai saltitando de um jarro de prata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a canção acabou, o Estudante se levantou e tirou do bolso um caderninho de notas e um lápis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele tem forma - disse para si mesmo, enquanto caminhava pelo bosque -, isso ninguém pode negar. Mas será que tem sentimentos? Temo que não. Na verdade, deve ser como a maioria dos artistas: é todo estilo, sem qualquer sinceridade. Ela jamais se sacrificaria pelos outros. Só pensa em música, e todo mundo sabe que as artes são egoístas. Mesmo assim, é preciso admitir que a sua voz tem algumas notas lindas. Que pena não significarem, nem qualquer utilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi para o seu quarto, onde se deitou em seu pequeno catre e, depois de pensar por algum tempo em sua amada, adormeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a lua começou a brilhar no céu, o Rouxinol voou para a Roseira e encostou o peito no espinho. Durante toda a noite ele cantou, como o peito no espinho, enquanto a fria Lua de cristal curvara-se para ouvir. Ele cantou a noite inteira e o espinho entrava cada vez mais fundo sem eu peito, enquanto seu sangue escorria para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro ele cantou sobre o nascimento do amor no coração de um rapaz e uma moça. E no ramo mais alto da Roseira foi florescendo uma rosa maravilhosa, pétala por pétala, à medida que uma canção seguia outra. A princípio ela era pálida como a névoa que parira sobre o rio, pálida como os pés da manhã e prateada como as asas da madrugada. Como a sombra de uma rosa em um espelho de prata. Como a sombra de uma rosa em uma lagoa, assim era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Roseira ficava gritando para o Rouxinol se apertar cada vez mais de encontro ao espinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aperta mais, Rouxinol! - gritava a Roseira -, se não o dia chega antes que a rosa esteja pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Rouxinol fazia cada vez mais pressão contra o espinho, e cantava cada vez mais alto, pois estava cantando o nascimento da paixão entre a alma de um homem e uma donzela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um delicado enrubescer rosado apareceu nas folhas da rosa, como o enrubescer no rosto do noivo quando beija os lábios da noiva. Mas o espinho ainda não havia atingido o coração, de modo que o coração da rosa permanecia branco, pois só o sangue do coração de um Rouxinol pode deixar rubro o coração de uma rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a Roseira gritava para o Rouxinol enfiar mais e mais o peito de encontro ao espinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mais ainda, pequeno Rouxinol - gritava a Roseira -, se não o dia chega antes de a rosa estar pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Rouxinol foi se apertando cada vez mais de encontro ao espinho, e o espinho tocou-lhe o coração, e um terrível golpe de dor passou por toda a avezinha. A dor era horrível, horrível, e a canção foi ficando cada vez mais enlouquecida, pois agora ele cantava o Amor que ficava perfeito com a Morte, o Amor que não morre no túmulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu do oriente. Rubro era todo o círculo de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a voz do Rouxinol foi ficando mais fraca, suas asinhas começar a se debater, e uma névoa cobriu seus olhos. Cada vez mais fraca foi ficando sua canção, e ele sentiu alguma coisa que sufocava sua garganta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então ele soltou uma última porção de música. A Lua branca ouvi-a e se esqueceu da madrugada, ficando no céu. A rosa também ouviu, estremeceu toda em êxtase, e abriu suas pétalas ao ar frio da manhã. O eco levou-a até sua caverna púrpura nas colinas e despertou de seus sonhos os pastores que dormiam. Ela flutuou até os juncos dos rio, e estes levaram a mensagem par ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Veja, veja! - gritou a Roseira. - Agora a Rosa está pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Rouxinol não respondeu, pois tinha caído morto no meio da relva, como o espinho atravessado no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meio-dia o Estudante abriu sua janela e olhou para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora, mas que sorte maravilhosa! - exclamou ele. - Eis ali uma rosa vermelha1 Jamais vi rosa como essa em toda a minha vida. É tão bonita que estou certo de que deve ter algum nome em latim! - e, debruçando-se, colheu-a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ele botou o chapéu e correu para a casa do Professor, com a rosa na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha do Professor estava sentada na porta, enrolando um fio de seda azul em um novelo, como o cachorrinho deitado a sues pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse um a rosa vermelha - exclamou o Estudante. - Aqui está a rosa mais vermelha do mundo inteiro. Use-a junto ao seu coração hoje à noite, e enquanto estivermos dançando eu lhe direi o quanto a amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a moça franziu o cenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Receio que ela não combine com o meu vestido respondeu. - E, além do mais, o sobrinho do Camerlengo mandou-me uma jóia de verdade, e todos sabem que as jóias custam muito mais do que as flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você é muito ingrata. - disse o Estudante com raiva, e atirou a rosa na rua, onde ela caiu em uma sarjeta e uma carroça acabou passando por cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ingrata? - disse a moça. - Pois fique sabendo que você é muito rude e, afinal, quem é você? Apenas um estudante. Ora, não creio sequer que tenha fivelas de prata para seus sapatos, como as que tem o sobrinho do Camerlengo - e, levantando-se de sua cadeira, entrou na casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que coisa tola é o amor! - disse o Estudante, enquanto se afastava. - Não tem a metade da utilidade da Lógica, pois não prova nada, e fica sempre dizendo a todo mundo coisas que não vão acontecer, fazendo com que acreditemos em coisas que não são verdade. Enfim, não é nada prático e, como hoje em dia ser prático é o importante, vou voltar à Filosofia e estudar Metafísica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltou para seu quarto, onde pegou um enorme livro todo empoeirado e começou a ler.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-1516255286989090194?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/1516255286989090194/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-rouxinol-e-rosa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1516255286989090194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1516255286989090194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-rouxinol-e-rosa.html' title='O ROUXINOL E A ROSA'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-5518851962728330889</id><published>2009-01-27T23:40:00.001-02:00</published><updated>2009-01-27T23:40:40.461-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O MODELO MILIONARIO'/><title type='text'>O MODELO MILIONARIO</title><content type='html'>O MODELO MILIONÁRIO&lt;br /&gt;Oscar Wilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De que vale ser um jovem encantador se não tiver bastante dinheiro? O romance é privilégio dos ricos e não profissão de desempregados. O pobre deve ser prático e prosaico. Vale mais uma renda permanente do que o dom de fascinar. Eram essas as verdades da vida moderna que o jovem Hughie Erskine não conseguia compreender. Pobre Hughie! Apesar de não ser de grande valor intelectual, nunca, em toda sua vida, havia feito ou dito alguma coisa de realmente relevante ou verdadeiramente reprovável. Era, contudo, extremamente simpático com seus cabelos castanhos ondulados, seu perfil de nítidos contornos e seus olhos acinzentados. Era tão bem sucedido com os homens como o era com as mulheres, e possuía todas as habilidades, menos a de ganhar dinheiro. Seu pai deixara-lhe por herança, seu sabre de cavalaria e quinze volumes sobre a História da Guerra Peninsular. Hughie pendurou o sabre acima do seu espelho de quarto; encaixotou os livros numa estande entre o Ruff’s Guide e o Bailey Magazine e passou a viver com a renda de 200 libras, abonadas por uma velha tia. Tentou todos os meios de ganhar a vida. Durante 6 meses arriscou a sorte na bolsa; mas que podia fazer um louva-a-deus entre ursos e touros? Passou algum tempo vendendo chá aos atacadistas mas cansou-se logo do "pekoe" e do "souchong". Em seguida tentou negociar "dry sherry", mas desistiu logo pois o "sherry" era seco demais. Finalmente entregou-se à deliciosa arte de não fazer absolutamente nada e tornou-se um jovem encantador e inútil, com um perfil impecável e sem profissão alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para complicar as coisas, Hughie amava. Sua eleita era Laura Merton, filha de um coronel reformado que deixara na Índia seu bom-humor e seu bom estômago e nunca mais encontrara nem um nem outro. Laura amava loucamente o jovem Hughie e ele, por sua vez, teria sido capaz de beijar com paixão até os cordões dos seus sapatinhos. Laura e Hughie formavam um dos pares mais combinados de Londres e entre ambos não havia sequer um real. O coronel estimava muito o jovem Hughie mas opunha-se a qualquer compromisso de casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Meu caro jovem - dizia o velho - Volte quando tiver acumulado com seus próprios esforços umas dez mil libras. Então, poderemos conversar. - Quando ouvia essas palavras, o jovem Hughie, acabrunhado, buscava conforto nos braços da sua amada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa manhã, quando se dirigia para Holland Park onde moravam os Mertons, Hughie resolveu visitar um grande amigo seu, chamado Alan Trevor, que era pintor. A arte de pintar tornou-se epidêmica em nossos dias. Mas além de pintor, Trevor era também um grande artista, e os grandes artistas são muito raros. Trevor era uma estranha criatura um tanto rude; tinha o rosto salpicado de sardas e usava uma barbicha ruiva, sempre emaranhada. Contudo, quando empunhava o pincel, tornava-se um autêntico mestre e todos os seus trabalhos eram muito requestados. Desde o princípio fora fortemente atraído pela sedutora personalidade de Hughie. "Os pintores só deviam conhecer criaturas obtusas e encantadoras. Criaturas que ao contemplar, nos proporcionem um real prazer artístico e ao conversar, um verdadeiro repouso intelectual. Os janotas e as coquetes governam o mundo, ou pelo menos deviam "governar", dizia Trevor freqüentemente. Entretanto, depois de conhecer melhor Hughie, apreciou-o tanto pela sua jovialidade e bom caráter quanto pela sua natureza generosa e espontânea, permitindo-lhe livre acesso ao seu estúdio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hughie, ao entrar, encontrou Trevor dando os retoques finais num magnífico quadro que representava um mendigo em seu tamanho natural. O mendigo em pessoa posava sobre um estrado num dos ângulos do estúdio. Era um ancião encarquilhado com o rosto enrugado como um pergaminho e cuja fisionomia expressava infinita tristeza. Um velho manto rústico, rasgado e esfarrapado, recobria seus ombros e seus sapatos remendados estavam rotos em diversos lugares. Tinha uma das mãos apoiada num grosseiro bastão e a outra segurava um chapéu velho, estendido à caridade pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Que extraordinário modelo! - exclamou Hughie, apertando a mão do amigo.&lt;br /&gt;    * Extraordinário - bradou Trevor - que dúvida! Um modelo como este não é encontrado todos os dias. Um achado, meu amigo, um verdadeiro achado. Um Velasquez em pessoa! Céus! Queágua-forte teria Rembrant com um modelo como esse!&lt;br /&gt;    * Pobre velho - disse Hughie - parece tão miserável. Suponho que para vocês, pintores, uma fisionomia dessas vale uma fortuna.&lt;br /&gt;    * Meu caro Hughie, respondeu o pintor, como quer que um mendigo irradie felicidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acomodando-se no sofá, Hughie perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Quanto ganha um modelo para posar, Trevor?&lt;br /&gt;    * Um shilling por hora.&lt;br /&gt;    * E quanto ganha você com o quadro?&lt;br /&gt;    * Esse ai me dará uns dois mil.&lt;br /&gt;    * Libras?&lt;br /&gt;    * Não, guinéus. Pintores, poetas e doutores só recebem guinéus.&lt;br /&gt;    * Pois olhe, Alan, na minha opinião os modelos deveriam receber uma porcentagem. O trabalho deles é quase tão árduo quanto do artista.&lt;br /&gt;    * Tolices, Hughie! Veja só o trabalho que dá aplicar a tinta na tela e ficar o dia todo em pé, na frente do cavalete. Falar é fácil, mas pode estar certo que há momentos em que a arte atinge a dignidade de um trabalho braçal. Mas deixe de tagarelar. Estou trabalhando e preciso de sossego. Sente e fume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo o criado entrou para avisar o pintor que o fabricante de molduras queria falar-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Fique aí, Hughie. Voltarei em minutos - disse Trevor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho mendigo aproveitou a ausência do pintor para descansar numa banqueta ao lado do estrado. Sua fisionomia era uma imagem de dor e tristeza e Hughie, comovido, procurou nos bolsos para ver se encontrava alguma moeda. Encontrou apenas uma libra e alguns pences. "Pobre velho", pensou ele, "precisa mais desse dinheiro do que eu e não me custa nada ficar sem condução quinze dias", e atravessando o estúdio depositou timidamente as moedas na mão do velhinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velhinho assustou-se e, depois, um leve sorriso esboçou-se nos seus lábios murchos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Muito obrigado, senhor. Muito obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trevor chegou e Hughie, enrubescendo um pouco pelo seu gesto, despediu-se e saiu. Passou o resto do dia em companhia de Laura, foi gentilmente censurado pela sua prodigalidade e voltou a pé para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, eram mais ou menos onze horas, Hughie foi para o Pallete Clube e encontrou Trevor sozinho no salão, bebendo vinho branco com água de seltzer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Então, Alan, conseguiu terminar o quadro?&lt;br /&gt;    * Terminar e emoldurar, meu caro! - respondeu Trevor. - E a propósito sabe que você fez mais uma conquista? O velhinho que serviu de modelo falou muito de você. Fui obrigado a descrevê-lo na íntegra. Ele quis saber quem é você, onde mora, de que vive, quais são seus planos para o futuro...&lt;br /&gt;    * Meu caro Alan - exclamou Hughie - Com certeza quando chegou em casa vou encontrá-lo me esperando. Mas, escute, Trevor. Você parece que está brincando. Saiba que tive muita pena do pobre infeliz. queria poder fazer alguma coisa por ele. Deve ser horrível ser tão desgraçado. Tenho muitas roupas velhas lá em casa. Acha que ele as aceitaria? Estava tão esfarrapado!&lt;br /&gt;    * Seus farrapos são a sua magnificência - disse Trevor. - Por dinheiro algum pintá-lo-ia envergando um fraque. O que você chama de farrapos eu chamo de romance. O que para você representa miséria, para mim representa pitoresco. Todavia, falar-lhe-ei de sua oferta.&lt;br /&gt;    * Vocês pintores não têm coração - disse Hughie num tom de censura.&lt;br /&gt;    * O coração do artista é a sua cabeça - respondeu Trevor - Aliás, o objetivo do artista é compreender o mundo como ele o vê e não reformá-lo como o compreendemos. A chacun son métier. Bem, e agora, diga-me como está Laura. O velho modelo está vivamente interessado nela.&lt;br /&gt;    * Quer dizer que ela também foi assunto de conversa entre vocês? - exclamou Hughie.&lt;br /&gt;    * Sim. Contei-lhe toda a história do implacável coronel, da formosa Laura e das 10 mil libras.&lt;br /&gt;    * Você contou todas essas particularidades ao velho mendigo? - bradou Hughie, enrubescendo vivamente e bastante exaltado.&lt;br /&gt;    * Meu caro Hughie - disse Trevor sorrindo - Esse pobre homem que você classifica de mendigo é um dos mais ricos da Europa. Se quiser, pode comprar amanhã toda a Inglaterra sem desfalcar seu crédito bancário. Possui propriedades em todas as capitais, faz suas refeições em baixelas de ouro e pode, quando lhe aprouver, impedir a Rússia de entrar em guerra.&lt;br /&gt;    * Que baboseiras está contando, Alan?&lt;br /&gt;    * Baboseiras? O ancião que você encontrou hoje no meu estúdio é o barão Hausberg. Um dos meus grandes amigos e admiradores e um dos meus melhores clientes. Compra quase todos os meus quadros e outras coisas mais. Há mais ou menos um mês pediu-me para retratá-lo na caracterização de um mendigo. Que voulez-vous? La fantasie millionnaire! Não posso negar que fez bela figura nos seus farrapos - ou melhor, nos meus farrapos. Comprei-os na Espanha.&lt;br /&gt;    * O barão de Hausberg! - murmurou Hughie, perplexo. - Santo Deus! E eu lhe dei uma libra - tartamudeou ele, afundando numa cadeira com ar profundamente consternado!&lt;br /&gt;    * Você lhe deu uma libra? - perguntou Trevor rindo. - Nunca mais a verá, meu caro amigo. Son affaire c’est l’argent des autres.&lt;br /&gt;    * Devia ter-me avisado, Alan - disse Hughie visivelmente aborrecido. - Teria evitado o ridículo papel que fiz.&lt;br /&gt;    * Bem, para começar, Hughie - disse Trevor - nunca me passou pela cabeça que você pudesse distribuir esmolas de maneira tão insensata e tola. Compreendo que se beije um modelo bonito, mas quanto a dar uma libra a um modelo feio - poxa, isso não. Além disso, hoje tinha intenção de não receber ninguém e quando você entrou no estúdio não sabia se o barão Hausberg queria que mencionasse o seu nome. Você compreende, com aqueles trajes...&lt;br /&gt;    * Deve julgar-me um idiota.&lt;br /&gt;    * Ao contrário. Quando você saiu ficou muito jovial e murmurava baixinho esfregando as mãos enrugadas. Fiquei um pouco atônito quando o vi tão interessado em você. Agora compreendo. Com certeza vai aplicar a libra que você lhe deu, Hughie, pagando-lhe os juros de seis em seis meses e terá uma história interessante para contar depois do jantar.&lt;br /&gt;    * Sou mesmo um desastrado - murmurou Hughie. - Acho que a melhor coisa a fazer é ir para a cama e, por favor, Alan, não conte o que aconteceu a ninguém.&lt;br /&gt;    * Tolices Hughie. Esse seu gesto prova o seu elevado espírito filantrópico. Fique aí, não vá, fume um cigarrinho e vamos conversar um pouco sobre Laura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hughie, aborrecido, não quis ficar e foi para casa. Sentia-se acabrunhado e deixou Alan rindo a mais não poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando estava se preparando para o primeiro almoço, o criado fez-lhe entrega de um cartão com os seguintes dizeres: "Mousieur Gustave Naudim, de la part de M. le Baron Hausberg". Com certeza vai pedir uma satisfação, pensou Hughie, mandando o criado introduzir o visitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem já idoso, de cabelos grisalhos e óculos de armação dourada, entrou na sala e disse com ligeiro sotaque francês: "Tenho prazer de falar com Mr. Erskine?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hughie fez um sinal afirmativo com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * Venho da parte do barão Hausberg - disse ele.&lt;br /&gt;    * Peço apresentar minhas sinceras desculpas ao senhor barão - disse Hughie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorrindo, o visitante prosseguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * O senhor barão incumbiu-me de lhe entregar esta carta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hughie pegou o envelope e leu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    * A Hughie Erskine e Laura Merton, como presente de casamento de um velho mendigo". Dentro do envelope havia um cheque de 10 mil libras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião do casamento o barão Hausberg pronunciou um bonito discurso em homenagem aos nubentes e Alan Trevor foi um dos padrinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Modelos milionários são muito raros - observou Alan - mas milionários modelos são mais raros ainda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-5518851962728330889?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/5518851962728330889/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-modelo-milionario.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5518851962728330889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5518851962728330889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-modelo-milionario.html' title='O MODELO MILIONARIO'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-2184538589399649309</id><published>2009-01-27T23:39:00.000-02:00</published><updated>2009-01-27T23:40:09.818-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O GIGANTE EGOÍSTA'/><title type='text'>O GIGANTE EGOISTA</title><content type='html'>O GIGANTE EGOÍSTA&lt;br /&gt;Oscar Wilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as tardes, ao saírem do colégio, as crianças costumavam a ir brincar no jardim do Gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um jardim lindo e grande, com grama verde e suave. Aqui e ali, sobre a grama, apareciam flores belas como estrelas, e havia doze pessegueiros que, na primavera, abriam-se em flores delicadas em tons de rosa e pérola, e davam ricos frutos no outono. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão docemente que as crianças costumavam parar de brincar para ouvi-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como nos sentimos felizes aqui! - exclamavam elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia ele voltou. Ele tinha andado visitando seu amigo, o ogre da Cornualha, e ficara sete anos com ele. Depois de sete anos ele já havia dito tudo que tinha o que não tinha para dizer, já que sua conversa era limitada, e resolveu voltar para seu próprio castelo. Ao chegar, ele viu as crianças brincando no jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é que vocês estão fazendo aqui? - gritou ele com uma voz muito ríspida, e as crianças saíram correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O meu jardim é meu jardim - disse o Gigante. - Qualquer um pode compreender isso. Eu não vou permitir que ninguém brinque nele, a não ser eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que ele construiu um muro alto em torno do jardim e colocou um cartaz de aviso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS INVASORES SERÃO PROCESSADOS!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era um Gigante muito egoísta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pobres crianças agora não tinham mais onde brincar. Elas tentaram brincar na estrada, mas a estrada era muito poeirenta e cheia de pedras duras, e eles não gostavam. Começaram a passear em torno do muro depois das aulas, conversando sobre o lindo jardim que ficava lá dentro. "Como éramos felizes lá!", diziam uma ás outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então chegou a Primavera, e por todo o país apareceram pequenas flores e pequenos pássaros. Só no jardim do Gigante Egoísta é que continuava a ser inverno. Os passarinhos não gostavam de cantar lá, porque não havia crianças, e as árvores se esqueceram de florescer. Uma vez uma flor bonita chegou a brotar, mas ao ver o cartaz de aviso ficou com tanta pena das crianças que se enfiou de volta no chão e adormeceu. Os únicos que estavam contentes eram a Neve e o Gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Primavera se esqueceu deste jardim - eles exclamaram -, de modo que podemos viver aqui o ano inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A neve cobriu toda a grama com seu manto branco, e o Gelo pintou todas as árvores de prata. Eles convidaram o Vento do Norte para se hospedar com eles, e ele veio. Todo enrolado em peles, rugia o dia inteiro pelo jardim, derrubando as chaminés com seu sopro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este lugar é ótimo - disse ele. - Nós precisamos convidar o Granizo para vir fazer uma visita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Granizo apareceu. Todos os dias, durante três horas, ele matracava no telhado do castelo até quebrar quase todas as telhas, e depois corria, dando voltas pelo jardim o mais depressa que podia. Sempre vestido de cinza, soprava gelo para todo lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não entendo porque as Primavera está demorando tanto a chegar! - disse o Gigante Egoísta, sentado junto à janela e olhando para seu jardim frio e branco. - Espero que o tempo mude logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Primavera não apareceu, nem o Verão. O Outono trouxe frutos dourados para todos os jardins, mas nenhum para o do Gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é muito egoísta - disse o Outono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que ali ficou sendo sempre inverno, e o Vento Norte e o Granizo, a Neve e o Gelo dançavam em meio às árvores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa manhã, o Gigante estava deitado, acordado, na cama, quando ouviu uma música linda Soava com tal doçura em seus ouvidos que ele até pensou que deviam ser os músicos do Rei que passavam. Na realidade era apenas um pequeno pintarroxo cantando do lado de fora de sua janela, mas já fazia tanto tempo que ele não ouvia um só passarinho em seu jardim que aquela parecia ser a música mais bonita do mudo. E então o Granizo parou de dançar sobre a cabeça dele, e o Vento do Norte parou de rugir, e um perfume delicioso chegou até ele, através da janela aberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que finalmente a Primavera chegou - disse o Gigante. - E, pulando da cama, olhou par fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ele viu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visão mais bonita que se possa imaginar. Por um buraquinho no muro as crianças haviam conseguido entrar, e estavam todas sentadas nos ramos das árvores. Em todas as árvores que ele conseguia ver havia uma criança. E as árvores estavam tão contentes de terem as crianças de volta que se cobriram de flores, balançando delicadamente os galhos, por cima da cabeça da meninada. Os passarinhos voavam de um lado para outro, chilreando de prazer, e as flores espiavam e riam. Era uma cena linda, e só em um canto é que continuava as ser inverno. Era o canto mais distante do jardim, e nele estava de pé um menininho. Ele era tão pequeno que não conseguia alcançar os ramos da árvore, e ficou andando em volta dela, chorando, muito sentido. A pobre árvore continuava coberta de neve e de gelo, e o Vento do Norte soprava e rugia acima dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sobe logo, menino! - dizia a Árvore, curvando os ramos o mais que podia. Mas o menino era pequeno de mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o coração do Gigante se derreteu quando ele olhou lá para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como eu tenho sido egoísta! - disse ele. - Agora já sei porque a Primavera não aparecia por aqui. Eu vou colocar aquele menininho em cima daquela árvore, depois vou derrubar o muro, e meu jardim será um lugar onde as crianças poderão brincar para sempre e sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava realmente arrependido do que tinha feito. E assim, desceu a escada, abriu a porta da frente com toa a delicadeza, e saiu para o jardim. Mas quando as crianças o viram ficaram tão assustadas que fugiram, e o inverno voltou ao jardim. Só o menininho pequeno é que não fugiu, porque seus olhos estavam marejados de lágrimas e não viu o Gigante chegar. E o Gigante aproximou-se de mansinho por trás dele, pegou delicadamente em sua mão e o colocou em cima da árvore. A árvore imediatamente floresceu, e os passarinhos vieram cantar nela; e o meniniho esticou os braços, passou-os em torno do pescoço do Gigante e o beijou. Quando viram eu o Gigante não era mais mau, as outras crianças voltaram correndo, e com elas veio a Primavera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora o jardim é de vocês, crianças - disse o Gigante. E pegando um imenso machado, derrubou o muro. Quando toda a gente começava a iro para o mercado, ao meio-dia, lá estava o Gigante brincando com as crianças no jardim mais bonito que todos já haviam visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas brincavam o dia inteiro, mas quando chegava a noite despediam-se do Gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas onde está seu companheirinho? - perguntou ele. - O menino que eu botei em cima da árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Gigante gostava dele mais do que de todos os outros, porque ele lhe havia dado um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós não sabemos - responderam as crianças. - Ele foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês têm de dizer a ele par anão deixar de vir aqui amanhã - disse o Gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as crianças disseram que não sabiam onde ele morava, e que jamais o haviam visto antes. O Gigante ficou muito triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as tardes, quando acabavam as aulas, as crianças iam brincar como Gigante. Mas o menininho de quem o Gigante gostava nunca mais apareceu. O Gigante era muito bondoso com todas as crianças, mas sentia saudades de seu primeiro amiguinho, e muitas vezes falava nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como eu gostaria de vê-lo! - costumava dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos se passaram, e o Gigante ficou mais velho e fraco. Ele já não conseguia brincar direito, e então ficava sentado em uma poltrona enorme, olhando as crianças que brincavam e admirando seu jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tenho tantas flores lindas - dizia ele -, ma as crianças são as flores mais bonitas de todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa manhã de inverno, ele olhou pela janela enquanto se vestia. Agora já não odiava o inverno, pois sabia que este era apenas a Primavera enquanto dormia, e que as flores estavam descansando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente ele esfregou os olhos, espantado, e olhou, e olhou, e olhou. Era por certo uma visão maravilhosa. No cantinho mais distante do jardim havia uma árvore toda coberta de flores brancas. Seus ramos eram dourados, carregados de frutos de prata, e debaixo deles estavam o menininho que ela amava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Gigante correu pelas escadas, com a maior alegria, e saiu para o jardim. Cruzou depressa o gramado e chegou perto do menino. E quando chegou bem perto, seu rosto ficou rubro de raiva, e ele disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem ousou te ferir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas palmas das mãos da criança estavam as marcas de dois pregos, como m haviam marcas de dois pregos em seus pezinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem ousou te ferir? - gritou o Gigante. - Dize-me, para que eu possa tomar de minha grande espada para matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não - respondeu o menino -, pois essas são as feridas do Amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem és? - perguntou o Gigante, e quando o temor apossou-se dele, ajoelhou-se diante da criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança sorriu para o Gigante e lhe disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você me deixou, certa vez, brincar em seu jardim, e hoje você irá comigo par ao meu jardim que é o Paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde, quando as crianças chegaram correndo, encontraram o Gigante morto, deitado debaixo da árvore, todo coberto por flores brancas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-2184538589399649309?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/2184538589399649309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-gigante-egoista.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2184538589399649309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2184538589399649309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-gigante-egoista.html' title='O GIGANTE EGOISTA'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-1294708355550851363</id><published>2009-01-27T23:38:00.002-02:00</published><updated>2009-01-27T23:39:35.897-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O FILHO DA ESTRELA'/><title type='text'>O FILHO DA ESTRELA</title><content type='html'>O FILHO DA ESTRELA&lt;br /&gt;Oscar Wilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez dois obres Lenhadores que estavam indo para casa através de uma grande floresta de pinheiros. Era inverno, e fazia um frio terrível. A neve estava alta no chão e recobria os ramos das árvores; o gelo ia estourando os raminhos mais tenros, enquanto passavam; e quando chegaram à Torrente da Montanha ela estava pairando no ar, imóvel, pois o Rei do Gelo já a beijara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio era tão intenso que nem mesmo os animais e os pássaros sabiam o que pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uuuhh! - rosnou o Lobo, enquanto capengava entre as plantas rasteiras, com o rabo entre as pernas. - Isso é o que o que chamo de tempo realmente péssimo. Por que será que o governo não faz alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Piu! Piu! Piu! - chilrearam os Pintarroxos. - A velha Terra morreu e foi embrulhada em uma mortalha branca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A Terra vai se casar, e esse é seu vestido de noiva - sussurrou uma Pomba-rola para outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus pezinhos cor-de-rosa estavam congelados, mas as pombas achavam que era seu dever encarar tudo com certo romantismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que bobagem! - grunhiu o Lobo. - Estou dizendo que é culpa do Governo, e se não me acreditarem, eu as comerei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Lobo sempre tomava atitudes muito práticas, e jamais deixou de encontrar bons argumentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, de minha parte - disse o Pica-pau, um filósofo nato -, procuro teorias atômicas para minhas explicações. Quando uma coisa é assim, ela é assim mesmo e, no momento, elas estão muito frias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estava terrivelmente frio. Os Esquilinhos, que viviam dentro de um pinheiro muito alto, e os Coelhos se enrolavam em suas tocas, sem ousar se quer olhar para fora. As únicas que pareciam estar se divertindo eram as grandes Corujas chifrudas. Suas penas estavam durinhas com a geada, mas elas não se importavam, e virando seus grandes olhos amarelos, chamavam umas às outras pela floresta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tu-uit! Tu-ú! Tu-uit! Tu-ú! Que tempo ótimo está fazendo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela iam os dois Lenhadores, soprando com força os dedos, e batendo com suas enormes botas ferradas neve congelada. Uma vez eles caíram num monte de neve mais fundo e saíram parecendo dois moleiros quando moem farinha e ficam todos brancos, e outra vez escorregaram no gelo liso da água congelada dos pântanos, a lenha dos feixes, e eles tiveram de apanhá-la e tornar a amarrá-la; e ainda uma outra vez pensaram que estivessem perdidos e ficaram apavorados, pois sabiam o quanto a Neve é cruel para com aqueles que dormem em seus braços. Mas continuaram confiando no bom São Martinho, que zela pelos viajantes, voltaram atrás pisando nas próprias pegadas, e começaram a andar com muita cautela, até chegarem à fímbria da floresta e verem, lá embaixo no vale, as luzes da aldeia onde moravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles ficaram tão contentes de se salvarem que riram alto e a Terra pareceu-lhes uma flor de prata, e a Lua uma flor de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, depois eles ficaram triste, pois se lembraram do quanto eram pobres, e um disse ao outro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que nos alegramos, se a vida é para os ricos e não para gente como nós? Melhor seria se tivéssemos morrido de frio na floresta, ou que alguma fera selvagem nos tivesse atacado e matado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade que alguns têm muito, enquanto outros têm pouco - respondeu seu companheiro. - A injustiça é distribuída por todo o mundo, e não há divisão eqüitativa de nada, a não ser de tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, enquanto se queixavam de sua miséria, aconteceu uma coisa estranha. Caiu do céu uma estrela muito brilhante e muito bonita. Ela escorregou pelo lado do céu, passando por outras estrelas em seu caminho, e enquanto os dois a observavam deslumbrados, ela pareceu-lhes cair atrás de uma moita de chorões que ficava bem junto a um aprisco não mais distante do que o alcance de uma pedra que arremessassem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora! Eis ali uma pilha de ouro para aquele que a achar - gritaram eles, e saíram correndo, de tal modo ansiavam eles pelo ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deles correu mais rápido do que o outro e passou-lhe a frente, forçando seu caminho pelos chorões até que saiu do outro lado onde - que surpresa! - realmente havia uma coisa dourada na neve branca. Então ele correu e, curvando-se, pôs as duas mãos em cima dela: era um manto de tecido dourado, curiosamente bordado com estrelas e enrolado com muitas dobras. Ele gritou para seu companheiro que encontrara o tesouro caído do céu, e quando o camarada chegou, ambos ficaram sentados no chão e foram soltando as dobras do manto, a fim de dividirem as moedas de ouro. Mas ai!, não havia lá dentro nem ouro, nem prata nem tesouro de espécie alguma, mas apenas um criancinha adormecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disseram então um ao outro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse é um final amargo para nossas esperanças, e em sequer boa fortuna nós temos, pois que adianta uma criança a um homem? Vamos deixá-la aqui e continuar nosso caminho, pois nós somos pobres, e já temos nossos próprios filhos, cujo o pão não podemos dar a outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, é um ato de maldade deixar a criança para morrer aqui na neve, e muito embora eu seja tão pobre quanto você, e tenha muitas bocas para alimentar, e muito pouco na panela, mesmo assim eu o levarei para casa, e minha mulher há de cuidar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como muito carinho pegou a criança, enrolou o manto em volta dela para protegê-la do vento impiedoso, e foi descendo a colina para a aldeia, com seu camrada espantado diante de sua imensa tolice e da moleza de seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ficou com a criança, então me dê o manto, pois é justo que compartilhemos tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, pois o manto não é nem seu nem meu, mas da própria criança - e desejando-lhe que fosse com Deus, foi para sua casa e bateu na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sua mulher abriu a porta e viu que o marido voltara para casa a salvo, ela jogou os braços em torno do pescoço dele e o beijou, tirou-lhe das costas o feixe de lenha de lenha, limpado a neve de suas botas e pediu-lhe que entrasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém ele disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Encontrei uma coisa na floresta e trouxe para que você cuide dela - e não arredou pé da soleira da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é? - exclamou ela. - Mostre-me, pois a casa está vazia e temos necessidade de muitas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele, atirando o manto para as costas mostrou-lhe a criança adormecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ai, marido! - murmurou ela. - Será que já não temos bastante filhos, e você ainda precisa trazer um enjeitadinho para nossa lareira? Quem sabe se ele não pode trazer má sorte? Quem zelará por nós? E quem nos alimentará?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- - Ora, Deus cuida até dos pardais, e os alimenta - respondeu ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- - E os pardais não morrem de fome no inverno? - perguntou-lhe a mulher. - E não é inverno agora? - e o marido não respondeu nada, mas não arredou o pé da soleira da porta. Um vento cortante entrou pela porta aberta fazendo a mulher tremer. Ela teve um arrepio e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que não fecha essa porta? O vento que entra está gelado, e eu estou com frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na casa em que o coração é duro não é sempre gelado o vento? - perguntou ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher não respondeu nada, mas chegou mais perto do fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo ela olhou para ele, como os olhos marejados de lágrimas, e ele logo entrou e colocou a criança nos braços dela; ela a beijou, colocando-a na caminha onde estava deitada o caçula do casal. Na manhã seguinte, o Lenhador pegou o curioso manto dourado e colocou-o em uma grande arca; também guardou um grande fio de contas de âmbar que estava no pescoço da criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim o Filho-da-Estrela foi criado com os filhos do Lenhador, sentando-se à mesma que eles, sendo seu companheiro de brincadeiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada ano ele ficava mais bonito, de modo que todos os que moravam na aldeia ficavam maravilhados, pois enquanto os outros eram morenos de cabelos negros, ele era branco e delicado como marfim lavrado, e seus cachos pareciam pétalas de junquilhos. Seus lábios também pareciam pétalas de alguma flor rubra, e seus olhos eram como violetas que nascem junto ao regato de água pura, e seu corpo era como o narciso que cresce no campo onde não chega a foice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém essa beleza o fez mau, pois tornou-o orgulhoso, cruel e egoísta. Os filhos do Lenhador e as outras crianças da aldeia ele desprezava, dizendo que eram de pais humildes, enquanto ele era nobre, já que nascera de um Estrela; e por isso dizia-se amo de todos eles, tratando-os como seus servos. Não tinha piedade para com os pobres, ou os que eram cegos, aleijados, ou de algum modo deficientes, antes atirando pedras neles para espantá-los em direção à estrada , dizendo-lhe que fossem mendigar seu pão em outra parte. De modo que ninguém, a não ser os bandidos, costumavam vir à aldeia para pedir esmolas. Ele parecia, na verdade, enamorado da beleza, debochando dos fracos e feios, menosprezando-os de todo modo. Mas amava a si mesmo, e no verão, quando não havia vento, ficava deitado junto ao poço do pomar do padre, olhando par o fundo a fim de ver seu próprio roso, rindo do prazer que sentia em ser tão belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes o Lenhador e sua mulher o repreenderam dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós não o tratamos como você trata os outros que estão desamparados e não têm quem o socorra. Por que razão é tão cruel para com todos aqueles que precisam de piedade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Filho-da-Estrela não dava atenção às suas palavras, e franzindo a testa e fazendo um muxoxo, voltava para a companhia dos outros meninos, para ser o chefe. Seus companheiros o seguiam, pois ele era lindo, rápido na corrida, sabia dançar, tocar flauta e fazer música. Onde quer que o Filho-da-Estrela os levasse, eles o seguiam, e o que quer que o Filho-da-Estrela lhes mandassem fazer, eles faziam. Quando ele furava com um junco pontudo os olhos da toupeira, eles riam; e quando ele atirava pedras em algum leproso, eles também riam. Em todas as coisas era ele quem os guiava, e seus corações foram ficando tão duros quanto o dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhem! Lá está sentada uma mendiga imunda debaixo daquela linda castanheira, com suas folhas verdes. Venham, vamos expulsá-la daqui, pois é feia e mal-enjambrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ele se aproximou, atirando-lhe umas pedras e caçoou dela; ela ficou apavorada, mas nem por um instante tirou dele o seu olhar. Quando o Lenhador, que estava cortando lenha ali por perto, viu o que o Filho-da-Estrela estava fazendo, veio correndo e repreendeu-lhe, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem mesmo um coração de pedra e não sabe o que é piedade, pois que mal lhe fez essa pobre mulher para que você a trate desse modo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Filho-da-Estrela ficou rubro de raiva, bateu com o pé no chão e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é você para questionar o que eu faço? Eu não sou seu filho para ter de obedecê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade - respondeu o Lenhador -, mas eu tive pena de você quando o encontrei na florestas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a mendiga ouviu essas palavras, deu um grito e caiu desmaiada. O Lenhador carregou-a para sua casa, sua mulher cuidou dela, e quando ela voltou a si do desmaio deles puseram comida e bebida na frente dela e disseram que se reconfortasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem querer comer nem beber, disse ela ao Lenhador:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor não disse que a criança foi achada na floresta? E não faz hoje exatamente dez anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então disse o Lenhador:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, foi na floresta que o encontrei, e faz hoje exatamente dez anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E que sinais encontrou com ele? - gritou ele. - Não trazia ele no pescoço um colar de âmbar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava ele enrolado em manta de tecido de ouro bordado com estrelas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade - respondeu o Lenhador -, foi exatamente assim como disse - e, pegando o colar e a manta na arca, mostrou-os a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é meu filhinho que eu perdi na floresta. Peço-lhe que mande logo chamá-lo, pois eu tenho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;andado por todo o mundo à procura dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o Lenhador e sua mulher saíram e chamaram o Filho-da-Estrela dizendo-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entre em casa, e lá há de encontrar sua mãe, que o espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele entrou correndo, espantado e muito alegre. Porém ao ver quem esperava lá dentro, ele riu com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desdém dizendo: - Bem, aonde esta minha mãe? Pois aqui não vejo ninguém se não essa mendiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a mulher respondeu-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou eu a sua mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esta louca, como pode dizer uma coisa dessas - gritou o Filho-da-Estrela com raiva. - Eu não sou filho seu, pois você não passa de uma mendiga. É muito feia e andrajosa, portanto, sai já daqui, e não me deixe tornar a ver sua cara horrenda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-1294708355550851363?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/1294708355550851363/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-filho-da-estrela.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1294708355550851363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1294708355550851363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-filho-da-estrela.html' title='O FILHO DA ESTRELA'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-5553019721826995450</id><published>2009-01-27T23:38:00.001-02:00</published><updated>2009-01-27T23:38:24.650-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA</title><content type='html'>A DONZELA E O FANTASMA  &lt;br /&gt;CAPÍTULO I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mister Hiram B. Otis, o Embaixador americano, adquiriu o Parque Canterville, não faltou gente a adverti-lo de que cometia uma loucura, porque na habitação apareciam, indubitavelmente, almas do outro mundo. Na verdade, o próprio lorde Canterville, cujo caracter era dos mais exigentes em escrúpulos, supusera do seu dever sublinhar o facto, chegado o momento de discutirem as condições do negócio.&lt;br /&gt;- Até nós mesmos tínhamos já muito pouca vontade de residir aqui - disse lorde Canterville - desde que a minha tia-avó, a duquesa donatária de Bolton, desmaiou de terror (ela nunca pôde restabelecer-se desse abalo moral) quando as mãos de um esqueleto lhe assentaram nas espáduas, numa ocasião em que se vestia para o jantar. Devo igualmente dizer-lhe, mr. Otis, que o fantasma tem sido visto por muitos membros ainda vivos da minha família, assim como pelo cura da paróquia, o Reverendo Augustus Dampier, agregado do King's College, em Cambridge. Depois do desgraçado acidente sucedido à duquesa nenhum dos nossos criados novos quis manter-se ao serviço, e lady Canterville raramente conseguia conciliar o sono durante a noite por causa dos misteriosos ruídos vindos do corredor e da biblioteca.&lt;br /&gt;- Lorde Canterville, - respondeu o Embaixador - eu sou comprador da propriedade e do fantasma pelo valor que lhes seja atribuído. Venho de um país moderno em que se tem tudo quanto o dinheiro pode obter. Não é certo que a nossa atrevida mocidade revoluciona o Velho Mundo? Não vos arrebatam as melhores actrizes e prime donne? Se existisse um fantasma na Europa, dentro em pouco o teríamos lá, estou convicto disso; ele seria exposto num dos nossos museus ou exibido nas ruas.&lt;br /&gt;- Pois muito receio que o fantasma ainda, de facto, exista - disse, sorrindo, lorde Canterville. - Pode ser que haja resistido às propostas dos vossos arrojados empresários. É bem conhecido desde há três séculos, precisamente a partir do ano de 1584, e nunca deixou de fazer a sua aparição em vésperas do falecimento de cada pessoa da nossa família.&lt;br /&gt;- Oh! em todas as famílias o médico faz exactamente o mesmo, lorde Canterville. Vamos, fantasmas, é coisa que não há. Não creio que as leis da natureza abram excepção a favor da aristocracia inglesa.&lt;br /&gt;- Os senhores, na América, são, não há dúvida, muito naturais - comentou lorde Canterville, sem bem compreender a última observação de mr. Otis - e, se lhe é indiferente ter um fantasma de portas a dentro, estamos entendidos.&lt;br /&gt;Passadas umas semanas a transacção estava concluída, e, já quase no termo da época, o Embaixador e a família foram instalar-se no Parque Canterville.&lt;br /&gt;Mistress Otis, em solteira, miss Lucrécia R. Tappan, de West 53 rd. Street, havia sido célebre em Nova-Iorque pela sua beleza. Era agora mulher de meia idade, muito agradável, com belos olhos e soberbo perfil. Muitas americanas, ao abandonarem o país natal, dão-se ares de mulheres atingidas por um mal incurável, imaginando ser essa uma das formas da subtileza europeia; mas mrs. Otis não caíra nunca em semelhante erro. Desfrutava uma compleição invejável e possuía maravilhoso equilíbrio animal. Em boa verdade e sob numerosos aspectos, era muito inglesa e oferecia excelente exemplo de que a Inglaterra e a América não têm hoje nada que as distinga uma da outra, salvo, bem entendido, a linguagem.&lt;br /&gt;O filho primogénito, a quem, num impulso de patriotismo que ele jamais deixara de lamentar, os pais haviam posto o nome de Washington, era um rapaz de cabelos louros e muito bem encarado; parecia integralmente dotado para entrar na diplomacia americana, pois levava de vencida os Alemães, três estações a fio no casino de Newport. A reputação de exímio dançarino que havia conquistado precedera mesmo a sua chegada a Londres. As gardénias e o pariato eram as únicas fraquezas do seu espírito; abstraindo de isso, mostrava ter muito bom-senso.&lt;br /&gt;Miss Virgínia E. Otis era uma rapariguinha de quinze anos, graciosa e ágil como corça recém-nascida e cujos olhos rasgados e azuis reflectiam uma bela franqueza. Era uma admirável amazona. Certo dia batera, em corrida, o velho lorde Bilton, dando duas voltas ao parque em cima do seu poltro e ganhando por comprimento e meio, precisamente em frente da estátua de Aquiles, isto com grande enlevo do jovem duque de Cheshire. O duque logo nesse instante tinha pedido a mão dela, e, remetido nessa mesma tarde para o colégio pelos encarregados da sua educação, regressara a Eton¹ derramando lágrimas torrenciais.&lt;br /&gt;A seguir a Virgínia contavam-se os gémeos, correntemente designados por «os condenados ao açoite». Eram ambos adoráveis rapazinhos e, com o digno Embaixador, os únicos verdadeiros republicanos da família.&lt;br /&gt;Como o Parque Canterville se encontra a sete milhas de Ascot, a estação ferroviária mais próxima, mr. Otis telegrafara no sentido de os irem buscar de carruagem; e, cheios de alegria, puseram-se todos a caminho.&lt;br /&gt;Era por uma linda meia tarde de Julho, em que o aroma dos pinheiros embalsamava o ar. De quando em quando ouviam um pombo bravo arrulhar docemente, ou enxergavam, escondido entre os rumorosos fetos, o brilhante peitilho de plumagem de um faisão. À sua passagem, pequenos esquilos, no seio da rama das faias, ficavam-se a olhá-los, e, alcançado a cauda branca, os coelhos fugiam a bom fugir através dos silvados ou galgavam os cômoros recobertos de musgo.&lt;br /&gt;Todavia, na ocasião em que se entranhavam na alameda do Parque Canterville o céu cobriu-se subitamente de nuvens, uma calma estranha pareceu envolver a atmosfera, um bando de gralhas passou silenciosamente por cima deles e, antes que houvessem atingido a casa, começaram a cair grossas gotas de chuva.&lt;br /&gt;Uma mulher já idosa acolheu-os no alto dos degraus. A maneira como se apresentava era irrepreensível. Envergava um vestido de seda preta, avental branco e touca desta mesma cor. Era mrs. Umney, a governanta. Mrs. Otis, a instâncias de lady Canterville, consentira em conservá-la ao seu serviço. Quando puseram pé em terra, ela fez a cada um dos seus novos amos uma rasgada mesura e disse, com solenidade já desusada:&lt;br /&gt;- Desejo que sejam bem-vindos ao Parque Canterville.&lt;br /&gt;Seguiram-na e, depois de terem atravessado um belo átrio no estilo Tudor, entraram na biblioteca, sala de grande extensão, de tecto baixo e ao fundo da qual se via uma ampla janela com vitrais. Fora aí que se preparara o chá, e, após terem-se despojado das vestes de viagem, sentaram-se e puseram-se a olhar em volta, enquanto mrs. Umney os servia.&lt;br /&gt;De súbito, mrs. Otis descobriu no soalho, nas peças de madeira embutidas, perto do fogão, uma mancha de tom vermelho escuro, e, longe de suspeitar o que aquilo significava, disse a mrs. Umney:&lt;br /&gt;- Estou em crer que caiu e alastrou ali qualquer coisa.&lt;br /&gt;- Sim, minha senhora, - respondeu em voz baixa a antiga governanta - é sangue.&lt;br /&gt;- Mas é horrível! - exclamou mrs. Otis. - Não gosto nada de ver manchas de sangue nos salões. É necessário fazer desaparecer isso imediatamente!&lt;br /&gt;A velhota sorriu e informou, na mesma voz baixa e misteriosa:&lt;br /&gt;- É o sangue de lady Eleanor de Canterville, assassinada precisamente neste sítio pelo marido, sir Simon de Canterville, em 1575. Sir Simon sobreviveu-lhe nove anos e desapareceu de súbito, em circunstâncias muito estranhas. O corpo dele nunca se encontrou, mas o seu espírito culposo vagueia ainda por esta casa. A mancha de sangue provocou sempre o pasmo dos visitantes e dos turistas. De resto, não se pode fazer desaparecer.&lt;br /&gt;- É absurdo! - exclamou Washington Otis -. O Pinkerton, o rei dos sabões para tirar nódoas, fá-lo-á desaparecer num abrir e fechar de olhos.&lt;br /&gt;E antes que a governanta, apavorada, pudesse intervir, Washington, pondo-se de joelhos, esfregava vigorosamente o parquete com um rolo de um pauzinho que tinha parecenças com cosmético negro.&lt;br /&gt;Instantes depois a mancha desaparecera por completo.&lt;br /&gt;- Eu sabia que o Pinkerton dava resultado! - proclamou o rapaz relanceando um olhar pela família, toda ela em atitude admirativa.&lt;br /&gt;Mas, mal acabara de pronunciar aquelas palavras, iluminou por inteiro o sombrio compartimento um terrível relâmpago e um estrondoso ribombo de trovão fê-los erguer bruscamente, ao passo que mrs. Umney perdia os sentidos.&lt;br /&gt;- Que monstruoso clima! - proferiu com serenidade o Ministro americano, acendendo um charuto. - Este vetusto país é, suponho, tão excessivamente povoado que não há bom tempo que chegue para todos os seus habitantes. Foi sempre opinião minha que a emigração era a solução única para a Inglaterra.&lt;br /&gt;- Meu querido Hiram - gritou mrs. Otis - que havemos de fazer de uma mulher que perde assim os sentidos?&lt;br /&gt;- Suspender-lhe-emos o ordenado quando tal suceda, de sorte que acabará por renunciar aos desmaios.&lt;br /&gt;Mrs. Umney não deixou de voltar a si dentro em breve. Estava porém, indubitavelmente, muito comovida. Com ar grave, preveniu mrs. Otis de que não tardariam a registar-se acontecimentos perturbadores.&lt;br /&gt;- Tenho visto com os meus próprios olhos - asseverou ela - coisas de pôr os cabelos em pé, e durante noites sobre noites não tenho podido pegar no sono, por causa do que de terrível se passa aqui.&lt;br /&gt;Mr. Otis e a esposa afirmaram à boa mulher que não tinham medo de fantasmas, e depois de ter impetrado as bênçãos da Providência para os seus novos amos e procedido de jeito a obter aumento de salário, a velha governanta recolheu ao seu quarto coxeando levemente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-5553019721826995450?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/5553019721826995450/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5553019721826995450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5553019721826995450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma.html' title='A DONZELA E O FANTASMA'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-2498945580433056255</id><published>2009-01-27T23:37:00.002-02:00</published><updated>2009-01-27T23:38:05.671-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO II</title><content type='html'>CAPÍTULO II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite a tempestade desencadeou-se com violência, mas nada aconteceu de particular. Todavia, na manhã seguinte, ao descer para o pequeno almoço, os Otis verificaram que a horrível mancha de sangue reaparecera.&lt;br /&gt;- Seguramente, a culpa não é do sabão para tirar nódoas - disse Washington - pois sempre o empreguei com êxito. Isto deve ser o fantasma.&lt;br /&gt;E o rapaz conseguiu fazer desaparecer a mancha pela segunda vez; no dia imediato, porém, ela estava de novo patente. No outro dia a seguir, a mancha lá se via, se bem que a biblioteca tivesse sido, na véspera à noite, fechada por mr. Otis em pessoa, que levara a chave para o seu quarto.&lt;br /&gt;O interesse de toda a família encontrava-se agora desperto. Mr. Otis começou a suspeitar de que havia sido excessivamente dogmático ao negar a existência de fantasmas. Exprimiu o propósito de pedir a sua inscrição na Sociedade de Estudos Psíquicos, e Washington enviou uma extensa carta aos senhores Myers e Podmore, acerca da «Persistência de manchas de sangue após o crime».&lt;br /&gt;Nessa noite todas as dúvidas a respeito da existência objectiva de espectro se dissiparam para sempre. O dia tinha estado quente soalheiro, e quando a proximidade da noite trouxe alguma frescura a família completa partiu para um passeio de carruagem. Não regressaram todos senão às nove horas e tomaram em seguida uma ligeira ceia. De modo nenhum a conversa incluiu a menor alusão sequer a fantasmas, de maneira que se não poderiam pôr em causa essas preliminares condições de expectativa e auto-sugestão que tantas vezes precedem a aparição dos fenómenos psíquicos, Como mr. Otis mo contou mais tarde, a discussão apegou-se aos triviais assuntos que constituem a conversação dos americanos cultos da melhor sociedade: a superioridade imensa de miss Fanny Davenport, como actriz, sobre Sarah Bernhardt; a dificuldade de obter milho verde, bolos de trigo mouro e polenda, mesmo nos melhores estabelecimentos ingleses; a importância de Boston no desenvolvimento do espírito universal; as vantagens do sistema de registo das bagagens; a suavidade da pronúncia das palavras em uso em Nova-Iorque comparada com o pronúncia arrastada de Londres. Nenhuma menção de coisas sobrenaturais. Nenhuma alusão a sir Simon de Canterville. Dadas as onze horas, a família recolheu-se e, às onze e meia, todas as luzes estavam apagadas.&lt;br /&gt;Decorrida uma porção de tempo, mr. Otis foi despertado por um ruído singular que vinha do corredor, perto do seu quarto. Dir-se-ia um tinido de metais que se entrechocam, e o ruído parecia de cada vez mais próximo. Levantou-se imediatamente, acendeu um fósforo e viu o relógio. Era uma hora em ponto. Muito calmo, mr. Otis tateou o pulso. Não se tratava de febre. O ruído estranho continuava e, dentro em pouco, mr. Otis percebeu distintamente passos. Enfiou as pantufas, tirou do seu estojo de toilette uma garrafinha oblonga e abriu a porta.&lt;br /&gt;Diante de si, à pálida claridade do luar, via um horrendo ancião. Os olhos dele, que se assemelhavam a carvões em brasa, lançavam clarões vermelhos. Caíam-lhe sobre os ombros os cabelos compridos cor de cinza, em madeixas emaranhadas. A roupa que vestia, de corte antigo, estava cheia de nódoas e em farrapos. Pesadas cadeias, todas cheias de ferrugem, pendiam-lhe dos pulsos e dos tornozelos.&lt;br /&gt;- Meu caro senhor, - disse mr. Otis - perdoe-me importuná-lo, mas é absolutamente necessário que unte essas correntes. Pensando na sua pessoa, peguei neste frascozinho de lubrificante. Dizem ser muito eficaz logo à primeira vez que se aplique. No prospecto junto achará muitos atestados dos mais eminentes sábios do país. Vou deixá-lo aqui, o frasco, junto dos candelabros, e sentir-me-ei deveras feliz em arranjar-lhe outro se tiver precisão dele.&lt;br /&gt;Ao dizer isto, o Ministro dos Estados-Unidos colocou o frasco sobre o tampo de mármore de uma mesa e, fechando a porta, voltou a meter-se na cama.&lt;br /&gt;O fantasma de Canterville ficou uns instantes imóvel, cheio de uma indignação bem natural; depois, arremessando violentamente o frasco ao chão encerado, sumiu-se ao longo do corredor a soltar grunhidos cavernosos e projectando em redor terrificantes clarões verdes.&lt;br /&gt;Ao atingir, porém, o alto da grande escadaria de carvalho, abriu-se bruscamente uma porta, apareceram dois pequenos vultos vestidos de branco, e um rotundo travesseiro passou-lhe, zumbindo, rente à cabeça! Decididamente, não havia tempo a perder e, adoptando como rápido meio de salvação a quarta dimensão do espaço, esvaiu-se através do revestimento de madeira das paredes, após o que a habitação recuperou a sua calma.&lt;br /&gt;Tendo alcançado uma alcouvazinha secreta situada na ala esquerda do edifício, apoiou-se, para retomar fôlego, num raio de luar e pôs-se a reflectir no que lhe acabava de suceder. Em toda a sua carreira de trezentos anos, brilhante e ininterrupta, nunca fora insultado tão grosseiramente. Recordou o estado de terror em que lançara a duquesa donatária quando ela se contemplava ao espelho, taful de diamantes e rendas; as quatro criadas que haviam tido uma crise de nervos muito simplesmente porque ele, rindo escarninhamente, as espreitara através dos cortinados de um dos quartos de hóspedes; o cura da paróquia, cuja vela apagara com um sopro quando ele saía uma noite da biblioteca, onde se retardara um pouco mais, e que depois, vítima de acidentes nervosos, estivera a ser tratado por sir William Gul; a velha senhora de Tremouillac, a qual, tendo acordado de manhã muito cedo e visto um esqueleto sentado numa poltrona, junto do fogão, imerso na leitura do seu diário íntimo, foi obrigada a conservar-se de cama durante seis semanas, presa de uma febre cerebral. A duquesa, logo que se vira curada, reconciliara-se com a Igreja, quebrando todas as relações com o senhor de Voltaire esse céptico notório.&lt;br /&gt;O fantasma lembrou-se também da terrível noite em que esse patife do lorde Canterville foi encontrado no seu gabinete de vestir meio sufocado, com o valete de ouros no fundo da garganta; precisamente antes de morrer confessara ter trapaceado ao jogo por meio dessa carta e roubado a Charles James Fox, em casa do Crockford, cinquenta mil libras esterlinas. O fantasma, jurava ele, obrigara-o a engolir a carta.&lt;br /&gt;O fantasma de Canterville revia, em pensamento, as suas mais belas façanhas. Evocou o caso do mordomo que, na copa, se suicidara com um tiro de revólver por ter visto uma mão verde bater nos vidros; depois, e da bela lady Stufield, que se intimou a trazer sempre em volta do pescoço uma fita de veludo negro, para ocultar a marca que cinco dedos de fogo haviam imprimindo na sua pele branca de leite, e que acabara por se afogar no lago das carpas, ao fim da alameda do Rei.&lt;br /&gt;Com o egoísmo entusiástico do verdadeiro artista, o fantasma passou em revista as suas realizações mais famosas. E com um sorriso cheio de azedume recordou-se da sua última aparição como «Ruben, o Vermelho, ou o Bebé Estrangulado», da sua estreia no papel de «Gibéon, o Vampiro de Bexley Moor», e da agitação que provocara, numa encantadora tarde de Junho, jogando muito simplesmente o chinquilho com a sua própria ossada, em cima da relva do campo de ténis.&lt;br /&gt;E, ao cabo de todos estes altos feitos, eis que uns miseráveis americanos modernos lhe vinham oferecer lubrificante e arremessar-lhe travesseiros à cabeça! Era verdadeiramente intolerável. Nunca fantasma nenhum fora tratado daquela maneira. Decidiu, pois, vingar-se; e até romper a aurora permaneceu em atitude de profunda meditação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-2498945580433056255?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/2498945580433056255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-ii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2498945580433056255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2498945580433056255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-ii.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO II'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-878248031466317833</id><published>2009-01-27T23:37:00.001-02:00</published><updated>2009-01-27T23:37:41.025-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO III</title><content type='html'>CAPÍTULO III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, durante o pequeno almoço, o fantasma constituiu o objecto de prolongada discussão. O Embaixador dos Estados-Unidos estava, como é natural, um pouco aborrecido por ver que a sua dádiva não tinha sido aceite.&lt;br /&gt;- De modo nenhum tive a intenção de dirigir ao fantasma uma injúria pessoal, e, sendo certo que ele reside na casa há tantíssimo tempo, vocês devem confessar que é muito pouco delicado atirar-lhe travesseiros à cabeça...&lt;br /&gt;Lamento ter de declarar que, perante esta justa advertência, os gémeos desataram às gargalhadas.&lt;br /&gt;- Por outro lado - prosseguiu o ministro - se ele se recusa, teimosamente, a empregar o lubrificante, teremos de confiscar-lhe as cadeias. É impossível dormir, com um barulho assim no corredor!&lt;br /&gt;Mas durante todo o resto da semana o fantasma não os incomodou absolutamente nada. A coisa única a excitar a atenção era o reaparecimento contínuo da mancha de sangue no parquete da biblioteca. E essa era uma estranha coisa, porque mr. Otis fechava a porta à chave todas as tardes e mandava correr bem as janelas. O facto de a mancha mudar tantas vezes de tom como um camaleão provocava igualmente numerosos comentários. Em determinadas manhãs, aparecia de um vermelho escuro, quase um vermelho indiano; no dia seguinte, era um rubro retinto; no outro dia, era um violeta sumptuoso; e até uma vez, quando os Otis todos desceram para as orações familiares, conforme os ritos cheios de simplicidade da Igreja Livre Americana Reformada e Episcopal, verificaram que a mancha era de um verde-esmeralda esplendente. É bem de ver, estas mutações caleidoscópicas divertiam muito a família; e, todas as noites, estabeleciam-se apostas a seu respeito. A única pessoa que não tomava parte na brincadeira era a pequena Virgínia, que, por qualquer ignota razão, parecia sempre consternada ao ver a mancha de sangue e esteve pertíssimo de desatar a chorar na manhã em que a nódoa apareceu no tom verde-esmeralda.&lt;br /&gt;A segunda aparição do fantasma efectuou-se no Domingo à noite. Pouco tempo depois de se terem metido na cama, foram de súbito alarmados por um medonho estrondo vindo do vestíbulo. Descendo precipitadamente a escada, verificaram que uma grande e antiga armadura, despegada da sua peanha, fora projectada para o lajedo, enquanto o fantasma de Canterville, sentado numa cadeira de alto espaldar e com uma expressão de angústia, esfregava os joelhos.&lt;br /&gt;Os gémeos, que se tinham munido das suas zarabatanas, descarregaram imediatamente dois pequenos projécteis sobre o fantasma, com essa precisão de pontaria que só longos e sérios exercícios, tendo por alvo um professor de escrita, pode dar, enquanto o Ministro dos Estados-Unidos, mantendo-o sob a ameaça do seu revólver, lhe intimava, segundo a etiqueta, que pusesse as mãos ao alto.&lt;br /&gt;O fantasma levantou-se bruscamente, com um medonho grito de raiva, e deslizou por entre eles todos tal qual um nevoeiro, apagando na sua passagem a vela de Washington Otis e deixando-os em escuridão completa.&lt;br /&gt;Ao alcançar o cimo da escadaria o fantasma recobrou ânimo e decidiu soar o famoso carrilhão de risos demoníacos, cuja utilidade mais de uma vez havia experimentado. Contava-se que aquilo fizera embranquecer, no decurso de uma noite apenas, a cabeleira postiça de lorde Raker, e que provocara a demissão de três das governantas francesas de lady Canterville antes de findo o seu primeiro mês de serviço. Por conseguinte, riu com o seu riso mais horroroso, até o velho tecto abobadado repercutir com o estrépito desse riso infernal. Mas, mal extinto o último eco, abriu-se uma porta e mrs. Otis apareceu embrulhada num roupão azul pálido.&lt;br /&gt;- Receio que o senhor não esteja bem de saúde. Trago-lhe aqui um frasco de tintura do Doutor Dobell. Se é uma indigestão, verá que o remédio é excelente.&lt;br /&gt;O fantasma fixou-a, cheio de fúria, e esteve prestes a transformar-se num canzarrão negro, realização que lhe tinha valido um justo renome e ao qual o médico da família atribuía sempre a idiotia incurável do tio de lorde Canterville, o nobre Thomas Horton. Mas um rumor de passos que se aproximavam fizeram-no hesitar no cruel projecto. Contentou-se em tornar-se levemente fosforescente, e esvaiu-se com um grunhido sepulcral no momento preciso em que os gémeos chegavam à altura em que se encontrava.&lt;br /&gt;Tendo regressado ao seu quarto, num enorme abatimento, dentro em pouco apossou-se dele a mais violenta agitação. O desplante dos gémeos e o materialismo grosseiro de mrs. Otis eram, sem sombra de dúvida, extremamente aborrecidos; mas o que o consternava mais era não ter podido envergar a armadura. Acrisolara suas esperanças em que até mesmo uns americanos modernos não deixariam de perturbar-se à vista de um espectro com armadura guerreira, senão por inteligentes razões ao menos por respeito por Longfellow, seu poeta nacional, cujos versos graciosos e cheios de encanto o tinham ajudado mais de uma vez a passar o tempo durante a ausência dos Canterville. Para mais, era a sua própria armadura. Ostentara-a com grande êxito no torneio de Kenilworth e recebera os mais calorosos cumprimentos da Rainha-Virgem em pessoa. Mas quando quisera, agora, enfiar a armadura, fora de todo em todo esmagado pelo peso da enorme couraça e do elmo de aço, e caíra desamparadamente sobre o lajedo, esfolando a valer os dois joelhos e contundindo as articulações da mão direita.&lt;br /&gt;Esteve doente durante muitos dias e não saiu do quarto senão para manter a nódoa de sangue. Todavia, com grandes cuidados, restabeleceu-se e resolveu fazer terceira tentativa para aterrorizar o Ministro dos Estados-Unidos e sua família. Escolheu a sexta-feira, 14 de Agosto, para a nova aparição, e ocupou a maior parte desse dia a passar em revista o seu guarda-roupa. Optou, por fim, por um chapéu de abas largas ornado de uma pluma vermelha, um sudário recortado nos punhos e no pescoço e uma adaga ferrugenta.&lt;br /&gt;No decurso do serão surdiu uma violenta tempestade. O vento soprava tão forte que sacudia janelas e portas da velha moradia. Era exactamente este o tempo de que o fantasma gostava. Eis o plano em que assentara. Iria de manso e manso até o quarto de Washington Otis; junto do leito, soltaria gritos e enterraria três vezes a adaga na sua própria garganta, ao som de uma lânguida música. Alimentava uma razão de queixa especial contra Washington, por saber muito bem, como sabia, que era ele quem, com o seu sabão para tirar nódoas, fazia incessantemente desaparecer a famosa mancha de sangue dos Cantervilles. Após ter submetido o descuidado e audacioso rapaz a um estado de abjecto terror, dirigir-se-ia então ao quarto ocupado pelo Embaixador dos Estados-Unidos e sua mulher; pousaria na testa de mrs. Otis a mão cheia de visco, ao mesmo tempo que insinuaria ao ouvido do esposo, todo ele numa tremura, os horríveis segredos de além-túmulo.&lt;br /&gt;Quanto à pequena Virgínia, ainda nada decidira. Era meiga e bonita e nunca o insultara. Alguns grunhidos roucos e profundos vindos de dentro do guarda-fato seriam, pensou, mais do que suficientes, e se por acaso eles a não despertassem poderia puxar com os dedos descarnados e trémulos o couvre-pied da rapariguinha.&lt;br /&gt;Na parte concernente aos gémeos estava deveras decidido a dar-lhes uma lição. Naturalmente, a primeira coisa a fazer era sentar-se sobre o peito deles, de maneira a produzir a sufocante sensação do pesadelo; depois, ficando as suas camas tão juntinhas, surgiria de permeio sob a forma de um cadáver verde e gelado, até que os manos se pusessem paralíticos de medo; por último, despojando-se do sudário, rojar-se-ia em volta de todo o aposento com a sua ossada embranquecida, fazendo ao mesmo tempo girar as meninas dos olhos, numa imitação de «Daniel o Mudo, ou o Esqueleto do Suicida», papel no qual produzira grande efeito em muitíssimas ocasiões e a que atribuía a mesma importância que à sua famosa personagem de «Martinho, o Louco ou o Mistério Mascarado».&lt;br /&gt;Às dez horas e meia percebeu que a família se ia deitar. Esteve um bocado de tempo perturbado pelas sonoras risadas dos gémeos, os quais, com a descuidada alegria de estudantes, certamente se divertiam antes de se enfiarem na cama. Mas às onze e um quarto tudo estava em sossego e, ao soar a meia-noite, ele partiu para a sua expedição.&lt;br /&gt;O mocho vinha roçar as asas nos vidros das janelas, o corvo crocitava no cimo do velho teixo e o vento vagueava em volta da casa, gemendo como alma penada. Mas a família Otis dormia, inconsciente do seu destino, e o cadenciado ressonar do Ministro dos Estados Unidos cobria o ruído do temporal. O fantasma esgueirou-se para fora da madeira das paredes sem dar sinal de si. Sobre a sua boca murcha e cruel desenhava-se um aflitivo sorriso, e a lua escondeu-se por detrás de uma nuvem quando ele passou junto da grande janela ogival ornada de um brasão azul e ouro, que representava as suas próprias armas e as da sua esposa assassinada. Deslizava como uma sombra funesta e até as trevas pareciam odiá-lo. De súbito, supôs ouvir alguém a chamá-lo. Deteve-se; mas apenas o latido de um cão subia da Granja Vermelha. Prosseguiu caminho, resmungando pragas do século dezasseis e brandindo de quando em quando a adaga corroída de ferrugem.&lt;br /&gt;O fantasma atingiu, por fim, o recanto do corredor que conduzia ao quarto do infortunado Washington. Parou um instante. O vento sacudia-lhe as madeixas compridas de cor de cinza e fazia ondular de maneira grotesca e fantástica o sudário de morto. O quadro inspirava indizível horror. O relógio soou então o quarto de hora. Compreendeu que tinha chegado o momento. Soltou, baixinho, uma risadinha de escárnio e transpôs a esquina do corredor. Mas, mal tinha dado aí um passo, logo recuou com um lamentoso gemido de terror e logo também ocultou nas suas mãos ossudas a face macilenta.&lt;br /&gt;Diante de si erguia-se um horrível espectro, tão imóvel como uma figura de pedra, tão monstruoso como o sonho de um louco. A cabeça dele era calva e luzidia, a face redonda, gorda e branca. Um riso ignóbil parecia ter-lhe contorcido as feições numa expressão eterna de zombaria. Dos olhos escorriam-lhe clarões escarlates. A boca era um largo poço de fogo e uma horrenda vestimenta, semelhante à sua, envolvia de longas pregas brancas o vulto titânico. Um letreiro contendo uma inscrição em caracteres estranhos e antigos ornava-lhe o peito: sem dúvida, um certificado de infâmia, a narrativa de medonhas faltas, uma lista de crimes espantosos. Com a mão direita, brandia um gládio de aço brilhante.&lt;br /&gt;Nunca tendo visto, até à data, nenhum fantasma, sentiu naturalmente um grande pavor. Lançou, rápido outro olhar ao terrível espectro e desatou a fugir para o seu quarto, tropeçando, ao seguir pelo corredor, no longo sudário que trazia. Por último, deixou cair a adaga ferrugenta dentro das grossas botas do Embaixador, onde o mordomo a foi encontrar no dia seguinte de manhã.&lt;br /&gt;Uma vez no refúgio da sua alcova, atirou-se para cima da estreita cama de lona e enterrou o rosto nos lençóis. Mas transcorrido um pedaço de tempo a antiga coragem dos Cantervilles recuperou os seus direitos. Decidiu ir falar com o outro fantasma, logo que nascesse o dia. E apenas a aurora prateou as colinas, voltou ao sítio onde havia, pela primeira vez, lançado os olhos sobre o formidável espectro, raciocinando que, no fim de contas, dois fantasmas valiam mais do que um, e que com a ajuda do seu novo colega talvez vencesse melhor os gémeos.&lt;br /&gt;Mas quando ali se encontrou, no mesmo lugar, um horrível espectáculo feriu seus olhos. Era de todo evidente que acontecera qualquer coisa ao fantasma, porque a luz lhe desaparecera completamente das órbitas, o gládio brilhante escorregara-lhe da mão e o corp&lt;br /&gt;o encostava-se à parede numa atitude de constrangimento e incómodo.&lt;br /&gt;Precipitou-se para ele e tomou-o nos braços. Mas, com assombro seu, a cabeça do outro rolou para o chão; o corpo foi-se também abaixo, e percebeu que estreitava apenas um cortinado de cama, de fustão branco, ao mesmo tempo que uma escova de cabo, uma machada de cozinha e um nabo oco lhe jaziam aos pés. Incapaz de compreender esta curiosa transformação, pegou no letreiro com pressa febril e, à luz fosca da aurora, leu estas palavras abomináveis:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O FANTASMA OTIS&lt;br /&gt;é o único, autêntico e original&lt;br /&gt;Desconfiai das falsificações!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como num relâmpago, compreendeu tudo. Tinham-lhe pregado uma partida! A característica expressão, dos Cantervilles perpassou-lhe nos olhos; cerrou as maxilas sem dentes e, levantando muito alto, acima da cabeça, as mãos descarnadas, jurou, segundo a fraseologia pitoresca da escola antiga, que, quando o galo fizesse ouvir mais duas vezes o seu alegre apelo, haviam de dar-se ali acontecimentos sangrentos e a morte deslizaria por aqueles lugares em silenciosos passos.&lt;br /&gt;Mal formulara este temível juramento, subiu, a distância, de uma granja coberta de telhas vermelhas, a voz de um galo. O fantasma soltou um prolongado e amargo riso e esperou. Hora após hora, esteve à espera; mas, por qualquer razão estranha, o galo não repetiu o canto. Por fim, às sete e meia, a chegada dos serviçais obrigou-o a abandonar o seu horrível posto de sentinela. Regressou ao quarto a passos lentos, a meditar na sua vã esperança e no seu abortado plano. Consultou então muitas obras a que dedicava particular apreço e que tratavam da antiga cavalaria. Aí verificou que, de todas as vezes que tal juramento havia sido formulado, sempre o galo cantara segunda vez.&lt;br /&gt;- Diabos levem aquele maldito volátil! - resmungou ele. - Ah! não me encontrar ainda no tempo em que, com minha intrépida lança, lhes trespassaria a gorja e em que o teria obrigado a cantar só para mim até perder o sopro!&lt;br /&gt;Depois estendeu-se num confortável ataúde de chumbo, em que permaneceu até o cerrar da noitinha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-878248031466317833?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/878248031466317833/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-iii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/878248031466317833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/878248031466317833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-iii.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO III'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-8164804136630495893</id><published>2009-01-27T23:36:00.002-02:00</published><updated>2009-01-27T23:37:09.532-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO IV</title><content type='html'>CAPÍTULO IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia imediato o fantasma estava muito fraco e muito cansado. Começava a ressentir-se dos efeitos da medonha agitação das quatro últimas semanas. Com os nervos quebrados, até o menor ruído o sobressaltava. Não saiu do quarto durante cinco dias e decidiu por fim renunciar à nódoa de sangue no chão da biblioteca. Se a família Otis não queria aquilo, claro estava que nem por sombras era digna do caso. Com plena evidência, essas pessoas viviam num plano de existência de baixo materialismo e eram em absoluto incapazes de apreciar o valor simbólico dos fenómenos sobrenaturais. O assunto das aparições espectrais e o desenvolvimento dos corpos astrais eram, sem dúvida, coisas diferentes e alheias à atenção daquela gente. Ele, fantasma, tinha como missão, como missão solene, aparecer no corredor uma vez por semana e ulular através de um janelão em ogiva na primeira e na terceira quartas-feiras do mês, e não via maneira de poder subtrair-se honrosamente às suas ocupações. A sua vida, é certo, fora culposa; mas, por outro lado, ele era rigidamente escrupuloso em tudo quanto se relacionava com o sobrenatural.&lt;br /&gt;Três sábados a fio o fantasma atravessou, portanto, o corredor como de costume, entre a meia-noite e as três da manhã, tomando mil precauções para não ser visto nem ouvido. Tirou os sapatos, pisou tão levemente quanto possível as faixas do parquete roídas pelo caruncho, enrolou-se num amplo manto de veludo negro e decidiu-se a empregar o lubrificante para untar as suas cadeias. É-me forçoso reconhecer que não foi sem dificuldade que veio a adoptar este derradeiro meio de protecção; mas, uma noite e à hora em que a família da casa se preparava para ir jantar, introduziu-se nos aposentos de mr. Otis e lançou mão do respectivo frasco. Ao fazê-lo experimentou, a princípio, um pouco de humilhação, mas logo adquiriu a inteligência bastante para se inteirar de que a invenção estava longe de ser má e de que, até certo ponto, lhe favorecia os planos.&lt;br /&gt;Apesar de tudo, não o deixavam, entretanto, em paz. Estendiam constantemente cordas no corredor, nas quais, quando estava escuro, tropeçava; e uma vez em que se encontrava vestido para desempenhar o papel do «Negro Isaque ou o Caçador de Hogley Woods», deu uma queda muito grave sobre um resvaladouro que os gémeos haviam armado e que ia desde a Sala das Tapeçarias até o cimo da escada de carvalho. Esta última afronta pô-lo em tamanha fúria que resolveu fazer um derradeiro esforço a fim de restabelecer a sua dignidade e a sua posição social. Decidiu pois uma visita, para a noite imediata, aos juvenis e insolentes colegiais de Eton, no seu famoso disfarce de «Ruperto, o Arrisca-Tudo ou o Conde-sem-Cabeça».&lt;br /&gt;O fantasma já não fazia qualquer aparição mascarado desta maneira desde mais de setenta anos atrás, precisamente desde que, assim vestido, aterrorizara a gentil lady Bárbara Modish, ao ponto de ela ter rompido bruscamente as promessas de noivado com o avô do lorde Canterville actual e fugido para Gretna Green com o belo Jack Castleton, declarando que nada deste mundo a decidira a entrar numa família que deixava um tão horroroso fantasma percorrer o terraço, ao cerrar-se o crepúsculo. Mais tarde, o pobre Jack foi morto em duelo por lorde Canterville em Wandsworth Common, e lady Bárbara, com o coração despedaçado, morreu em Tunbridge Wells antes de findo esse mesmo ano; de sorte que, sob todos os aspectos, fora um esplêndido êxito.&lt;br /&gt;Todavia, tratava-se de uma «composição» extremamente difícil (se me é permitido usar esta expressão de teatro a propósito de um dos maiores mistérios do sobrenatural, ou, para empregar um termo científico, do mundo supra-normal), e foram-lhe precisas três boas horas para executar os preparativos. Tudo se aprontou, finalmente. Estava muitíssimo satisfeito com o seu aspecto. As altas botas de montar que condiziam com o trajo eram um tanto largas de mais para ele, e não tinha podido achar senão uma das pistolas dos coldres da sela; mas, em suma, estava muito contente, e, à uma hora e um quarto, deslizou através do forro de madeira e desceu suavemente para o corredor. Chegado ao quarto que os gémeos ocupavam (designavam-no por «o quarto azul», por causa do tom das pinturas), encontrou a porta entreaberta. Querendo fazer uma entrada de pleno efeito, empurrou bruscamente a porta, mas o conteúdo de um grande jarro de água entornou-se em cima dele e o próprio jarro, ao cair, roçou-lhe pela espádua esquerda. No mesmo instante, risadas que alguém procurava reprimir subiram dos leitos de colunas. O abalo nervoso que experimentou foi tamanho que desatou a fugir para o seu esconderijo com a maior celeridade. No dia seguinte, muitíssimo constipado, teve de conservar-se na cama. A consolação única que lhe restava era de não ter levado a sua própria cabeça nesta expedição; de contrário, a imprudência poder-lhe-ia ter acarretado as mais graves consequências.&lt;br /&gt;O fantasma abandonou então toda a esperança de assustar aquela grosseira família americana e contentou-se, afinal, com percorrer de pantufas de solas de feltro os corredores, o pescoço envolvo num espesso cachené vermelho por causa das correntes de ar e empunhando um bacamartezinho com receio de ser atacado pelos gémeos. Foi em 19 de Setembro que ele recebeu o golpe final.&lt;br /&gt;O fantasma descera ao vasto hall de entrada, certo de que aí ninguém o molestaria, e divertia-se a alvejar com observações satíricas as grandes fotografias do Ministro dos Estados Unidos e de sua mulher, assinadas por Saroni, que haviam substituído os retratos da família dos Cantervilles. Vestia-o um longo sudário, muito simples mas decente, salpicado de manchas de lama vinda do cemitério. Atara os queixos com uma ligadura de tela amarelada e segurava uma pequena lanterna e uma enxada de coveiro. Numa palavra, estava disfarçado para o papel de «Jonas, o Morto sem Sepultura, ou o Ladrão de Cadáveres de Chertsey Barn», uma das suas mais notáveis criações, da qual ora os Cantervilles tinham excelentes razões para se lembrar, porque fora essa a verdadeira origem do pleito com o seu vizinho, lorde Rufford.&lt;br /&gt;Eram aproximadamente duas horas e um quarto da manhã. O fantasma poderia afirmar que todos os moradores da casa repousavam. Mas ao dirigir-se, em ar de passeio, para a biblioteca, no fito de ver se ainda restava qualquer vestígio da mancha de sangue, saltaram de súbito sobre ele, de um recanto escuro, dois vultos que agitavam ferozmente os braços por cima da cabeça e lhe berravam «U-u! U-u!» aos ouvidos.&lt;br /&gt;Tomado de pânico, o que em tais circunstâncias era muitíssimo natural, precipitou-se para a escadaria: aí, porém, esperava-o Washington com a grande mangueira de rega do jardim. Cercado de todos os lados pelos inimigos, literalmente encurralado, desapareceu no interior do enorme fogão, que, felizmente para si, não estava aceso. Teve de abrir caminho através dos canos e das chaminés e alcançou o seu quarto num lamentável estado de sujidade, desarranjo e desespero.&lt;br /&gt;Após esta aventura renunciou às expedições nocturnas. Os gémeos muitas vezes se esconderam à sua espera e, todas as noites, juncavam de cascas de nozes os corredores, coisa que aborrecia bastante os país e os criados; mas foi tudo inútil. Era manifesto que o fantasma, ferido em seus sentimentos, se recusava a aparecer. Em consequência, mr. Otis retomou a sua grande obra sobre a «História do Partido Democrático», em que trabalhava havia uma porção de anos. Mrs. Otis organizou um maravilhoso clam-bak², que causou espanto em toda a região. Os rapazes dedicaram-se ao cross, ao écarté, ao poker e a outros jogos nacionais americanos. E Virgínia percorreu no seu poldro todos os caminhos circunvizinhos, em companhia do duque de Cheshire, que tinha vindo passar no Parque Canterville a sua última semana de férias. Supôs-se, naturalmente, que o fantasma abalara dali, e mr. Otis escreveu a lorde Canterville a informá-lo do caso. Este respondeu que a notícia lhe dava grande prazer, e enviou os seus cumprimentos à digna esposa do Ministro.&lt;br /&gt;Mas os Otis enganavam-se, porque o fantasma permanecia ainda na casa e, se bem que estivesse agora quase inválido, não tinha de forma nenhuma a intenção de ficar quieto, sobretudo desde que soube que, entre os convidados, se encontrava o duquezinho de Cheshire, cujo tio-avô, lorde Francis Stilton, apostara um dia cem guinéus em como jogaria aos dados com o fantasma de Canterville, vindo a ser encontrado, na manhã seguinte, estendido no chão da sala de jogo completamente paralítico. Não obstante ter vivido até avançada idade, nunca mais pôde dizer senão isto: «duplo-seis!».&lt;br /&gt;A história era bem conhecida na época em que sucedera o caso; mas, para poupar o sentimento de duas famílias nobres, tudo foi tentado para abafar a coisa. Todavia, encontrar-se-á uma sua narrativa pormenorizada no terceiro volume da obra de lorde Tattle: «Memórias Relativas ao Príncipe Regente e seus Amigos».&lt;br /&gt;Era, por conseguinte, natural que o fantasma quisesse provar que não tinha perdido a influência sobre os Stilton, aos quais o unia um parentesco afastado, devido a uma sua prima-irmã ter casado em segundas núpcias com o Senhor de Bulkeley, de quem os duques de Cheshire, como se sabe, descendem em linha directa. Consequentemente, tomou as suas disposições para aparecer ao juvenil enamorado de Virgínia na sua célebre criação do «Monge Vampiro, ou o Beneditino Exangue», espectáculo tão horrível que a velha lady Startup, ao dar com os olhos nele, o que lhe sucedeu nessa fatal véspera do ano de 1764, desatou nos mais dilacerantes gritos, que terminaram por um ataque de apoplexia; morreu três dias depois, não sem ter deserdado os Canterville, seus mais próximos parentes, e deixado todo o dinheiro que possuía ao seu boticário de Londres.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-8164804136630495893?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/8164804136630495893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-iv.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/8164804136630495893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/8164804136630495893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-iv.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO IV'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-2576180559105267250</id><published>2009-01-27T23:36:00.001-02:00</published><updated>2009-01-27T23:36:28.510-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO V</title><content type='html'>CAPÍTULO V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados dias, andavam Virgínia e o seu apaixonado de cabelos em anéis a percorrer a cavalo as pradarias de Brockley, eis senão quando a rapariguinha, sentindo-se presa num silvado, rasgou o vestido de amazona tão desastradamente, que, ao reentrar em casa, decidiu tomar a escada secreta para que ninguém lhe pusesse a vista em cima. Ao passar, porém, a correr, diante da Sala das Tapeçarias, cuja porta precisamente estava aberta, julgou perceber a existência de alguém no interior. Vindo-lhe à ideia que seria a criada de quarto da mãe, a qual às vezes ia para ali costurar, entrou para pedir à mulher que lhe consertasse a saia.&lt;br /&gt;E, com imensa surpresa sua, Virgínia viu o fantasma de Canterville em pessoa! Estava sentado junto da janela, a contemplar o ouro das árvores amarelentas, a ver as folhas rubras rodopiarem como loucas na grande alameda. A cabeça apoiada na mão, toda a sua atitude traía uma depressão extrema. Na verdade, ele apresentava um ar tão desolado e tão lamentável, que a pequena Virgínia, cujo primeiro movimento foi fugir e encerrar-se no quarto, tomada logo de piedade resolveu tentar reconfortá-lo. Os passos de Virgínia eram tão leves e a melancolia do fantasma tão profunda, que este não teve consciência.&lt;br /&gt;- Sinto-me contristada por sua causa - disse Virgínia - os meus irmãos voltam amanhã para Eton e, se o senhor se portar bem, ninguém o atormentará.&lt;br /&gt;- Pedirem-me que me porte bem! Mas é absurdo! - respondeu ele com os olhos escancarados de espanto à vista daquela gentil donzelinha que ousava dirigir-se-lhe. - É completamente absurdo! É imprescindível que eu faça ranger as minhas cadeias e ulule pelos buracos das fechaduras e passeie por aí de noite, se é a isto que a menina faz alusão. Essa é a minha única razão de existência.&lt;br /&gt;Mas, à última hora, o terror que lhe causavam os gémeos impediu o fantasma de abandonar o seu quarto. E, na câmara real, o duquezinho dormia em paz no vasto leito de baldaquino ornado de plumas e sonhava com Virgínia.&lt;br /&gt;- Isso não e uma razão de existência, e o senhor bem sabe que tem sido muito mau. Mrs. Umney disse-nos, no dia da nossa chegada aqui, que o senhor matou a sua mulher.&lt;br /&gt;- Bem, concordo - disse com vivacidade o fantasma -; mas trata-se de um assunto de família com o qual os outros nada têm.&lt;br /&gt;- É multo mal feito matar alguém - insistiu Virgínia, que, vezes, mostrava uma encantadora expressão de gravidade puritana, herdada de qualquer antepassado da Nova Inglaterra.&lt;br /&gt;- Oh, detesto esse corriqueiro rigor da ética abstracta! Minha mulher era feia, não engomava nunca convenientemente a minha gola de folhos e não percebia nada de cozinha. Olhe, eu tinha matado um veado nos bosques de Hogley, um veadozinho magnífico. Quer saber como ela o fez aparecer à mesa? Mas que importa o caso, presentemente?! Tudo isso acabou. Não creio, porém, que fosse muito bonito da parte de seus irmãos fazerem-me morrer de fome, embora eu a tenha matado.&lt;br /&gt;- Fazê-lo morrer de fome? Oh, senhor fantasma... quero dizer, sir Simon... o senhor tem fome? Trago ali uma sanduíche no meu saco de costura. Quere-a?&lt;br /&gt;- Não, obrigado, já não como nada, agora. Mas é, apesar de tudo, muita amabilidade da sua parte. A menina é muito mais gentil do que o resto da sua horrenda família, grosseira, vulgar, indigna!&lt;br /&gt;- Cale-se! - bradou Virgínia batendo com o pé no chão. - Quem é grosseiro, horrendo e vulgar, é o senhor; e, quanto a indignidade, sabe perfeitamente que foi o senhor quem roubou as bisnagas da minha caixa de pintura para tentar avivar essa ridícula mancha de sangue na biblioteca. Primeiramente, deitou mão a todos os meus encarnados, sem esquecer o vermelhão, e tive de deixar de pintar o pôr do Sol; depois arrebatou o verde-esmeralda e o amarelo cromado; e, finalmente, só me restavam o anil e o branco da China, de modo que só podia pintar paisagens à luz do luar, que deprimem tanto quando as olhamos e que são tão pouco fáceis de executar. Eu nunca disse nada contra o senhor; contudo, andava muito aborrecida e tudo aquilo era bastante ridículo. Já se viu sangue de tom verde-esmeralda?&lt;br /&gt;- Mas - disse o fantasma acalmando-se um pouco -, que hei-de eu fazer? Nestes nossas dias, é muito difícil encontrar sangue verdadeiro e, visto que foi o seu irmão a romper com o tira-nódoas, não vejo motivo para não lançar mão das bisnagas que lhe pertencem. Quanto à cor, é simples questão de gosto: os Cantervilles, por exemplo, têm sangue azul, o mais azulado de Inglaterra, mas sei que vós outros, os americanos, troçais a valer de tudo isto.&lt;br /&gt;- O senhor nada sabe a esse respeito, e o melhor que tem a fazer é emigrar, para cultivar o espírito. Meu pai não deixará de sentir-se muitíssimo feliz em lhe conseguir uma passagem gratuita. O senhor não encontrará dificuldade alguma na alfândega, onde todos os funcionários são democratas. Uma vez em Nova-Iorque, alcançará o maior dos êxitos. Conheço uma porção de gente que daria cem mil dólares para ter um antepassado, e ainda mais para ter um fantasma na família.&lt;br /&gt;- Tenho a convicção de que não gostaria da América.&lt;br /&gt;- Porque, suponho, não temos lá ruínas, nem curiosidades - disse Virgínia ironicamente.&lt;br /&gt;- Nem ruínas! Nem curiosidades! - replicou o fantasma - Mas tendes a vossa marinha e essas vossas maneiras!&lt;br /&gt;- Adeus! Vou pedir ao meu papá que conceda aos gémeos uma semana suplementar de férias.&lt;br /&gt;- Não, não vá, miss Virgínia! - implorou o fantasma. - Estou tão só e tão desgraçado e não sei verdadeiramente o que fazer. Quero dormir e não posso.&lt;br /&gt;- Mas isso é absurdo! Basta deitar-se e soprar a vela. Às vezes é difícil a gente manter-se acordada, na igreja sobretudo, mas é coisa bem fácil dormir. Até os bebés sabem isso; todavia, não são muito inteligentes.&lt;br /&gt;- Há trezentos anos que não durmo, - disse ele com tristeza (os belos olhos azuis de Virgínia dilataram-se de espanto). - Há trezentos anos que não durmo, e estou tão cansado!&lt;br /&gt;O rosto de Virgínia tornou-se grave e os labiozinhos puseram-se-lhe a tremer como pétalas de rosa. Aproximou-se do espectro e, ajoelhando-se junto dele, ergueu os olhos para a velha face pergaminhanda.&lt;br /&gt;- Pobre, pobre fantasma! - murmurou - Não há então sítio onde possa dormir?&lt;br /&gt;- Além em baixo, para lá do pinhal - respondeu ele numa voz lenta e meditativa -, há um jardinzinho. A erva cresce ali, espessa e alta, salpicada das grandes estrelas brancas da cicuta, e o rouxinol canta lá toda a noite. Toda a noite ali canta o rouxinol, e a fria lua de cristal reclina-se para ver melhor, e o cipreste estende seus braços gigantescos sobre os dormentes.&lt;br /&gt;Os olhos de Virgínia velaram-se de lágrimas e ela escondeu o rosto nas mãos.&lt;br /&gt;- Quer aludir ao jardim da Morte - murmurou.&lt;br /&gt;- Sim, da Morte! A morte deve ser tão bela! Repousar na terra doce e escura, tendo as ervas a ondular por cima de nós, e escutar o silêncio! Não ter ontem nem amanhã! Esquecer o tempo! Esquecer a vida, estar em paz! A menina pode ajudar-me. Pode abrir para mim as portas da casa da Morte, porque traz o Amor consigo e o Amor é mais forte do que a Morte.&lt;br /&gt;Virgínia pôs-se a tremer, percorreu-a toda um frémito gelado e, durante momentos, fez-se silêncio. Tinha a impressão de estar sonhando um terrível sonho.&lt;br /&gt;O fantasma voltou então a falar, e a sua voz ressoava como um suspiro do vento.&lt;br /&gt;- Já leu alguma vez a velha profecia inscrita nos vitrais da biblioteca?&lt;br /&gt;- Oh, muitas vezes! - exclamou a donzelinha erguendo os olhos. - Conheço-a multo bem. Está pintada em curiosas letras a negro e é difícil de ler. São apenas seis versos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando uma criança de coração puro conseguir&lt;br /&gt;Colher dos lábios pecaminosos uma prece,&lt;br /&gt;Quando a estéril amendoeira florescer,&lt;br /&gt;Quando dos olhos puros brotar uma lágrima,&lt;br /&gt;Esta casa ficará para todo o sempre tranquila&lt;br /&gt;E a Graça voltará a Canterville.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas não sei o que isto quer dizer.&lt;br /&gt;- Quer dizer - respondeu ele tristemente - que a menina deve chorar comigo pelos meus pecados, porque eu já não tenho lágrimas, e rezar comigo pela minha alma, porque nada me resta de fé. Então, se tiver sido sempre meiga e boa, o Anjo da Morte terá piedade de mim. Há-de ver, na escuridão, vultos horríveis, vozes maldosas falar-lhe-ão ao ouvido, mas não sofrerá mal nenhum porque o Inferno nada pode contra a pureza de uma criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgínia não respondeu e o fantasma torceu as mãos com desespero, baixando o olhar sobre a cabeça coroada de cabelos de ouro reclinada perto dele. A jovem ergueu-se de súbito, muito pálida. Um estranho clarão lhe perpassou nos olhos.&lt;br /&gt;- Não tenho medo - disse ela com firmez -. Rogarei ao Anjo que tenha piedade de vós.&lt;br /&gt;O fantasma endireitou o busto ao mesmo tempo que soltava um débil grito de alegria, e, inclinando-se com uma gentileza já há muito fora de moda, pegou na mão da rapariguinha e beijou-lha. Os dedos de sir Simon tinham a frialdade do gelo e seus lábios queimavam como fogo, mas Virgínia não sentiu o menor desfalecimento enquanto ele a fazia atravessar o compartimento cheio de sombras. Bordadas nas tapeçarias, cujo tom verde fora desbotando, viam-se figurinhas de caçadores. Estes sopraram nas suas trompas ornadas de glandes e, com as minúsculas mãos, fizeram-lhe sinal para que arrepiasse caminho.&lt;br /&gt;- Retrocede, Virgíninha - gritavam eles - vai-te embora!&lt;br /&gt;Mas o fantasma estreitava-lhe a mão com mais força e Virgínia fechou os olhos para os não ver. Horrorosos animais de cauda semelhante à dos lagartos, olhos salientes de cabeça, pestanejaram-lhe repetidamente, de cima do fogão esculpido, e murmuraram:&lt;br /&gt;- Toma cuidado, Virgininha, toma cuidado, olha que talvez nunca mais te tornemos a ver!&lt;br /&gt;Mas o fantasma deslizou com mais celeridade e Virgínia não deu ouvidos àqueles. Ao atingirem a extremidade da sala, o fantasma parou e murmurou palavras que Virgínia não podia compreender. Ela abriu os olhos e viu a parede desaparecer lentamente como um nevoeiro, após o que se encontrou diante de uma grande caverna negra. Envolveu-os um vento áspero e frio e a jovem sentiu que a puxavam pela saia.&lt;br /&gt;- Depressa! Depressa! - gritou o fantasma -. Senão será demasiadamente tarde.&lt;br /&gt;Num instante o forro de madeira tornou a cerrar-se por detrás deles. A Sala das Tapeçarias ficara deserta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-2576180559105267250?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/2576180559105267250/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-v.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2576180559105267250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/2576180559105267250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-v.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO V'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-4394530348785907160</id><published>2009-01-27T23:34:00.000-02:00</published><updated>2009-01-27T23:35:28.706-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO VI</title><content type='html'>CAPÍTULO VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a dez minutos, a sineta tocou para o chá e, como Virgínia não descesse, mrs. Otis mandou-a chamar por um dos criados. Passado um momento, este voltou para dizer que não tinha encontrado miss Virgínia em parte nenhuma. Como a jovem adquiria o costume de ir todas as tardes colher flores para o jantar, mrs. Otis não se inquietou; mas ao soarem as seis horas sem que a filha tivesse reaparecido, começou verdadeiramente a alarmar-se e mandou os rapazes à sua procura, ao mesmo tempo que ela própria e mr. Otis percorriam a casa, compartimento por compartimento.&lt;br /&gt;Às seis e meia estavam de volta os rapazinhos sem terem podido achar o mais leve vestígio da irmã. Todos se encontravam agora na maior agitação e não sabiam que fazer, quando mr. Otis se lembrou de repente que, uns dias antes, concedera licença a um bando de ciganos para acamparem no parque. Imediatamente partiu para Blackfell Hollow, onde, sabia-o, os ciganos deviam agora estar. Acompanhavam-no seu filho mais velho e dois criados da granja. O duquezinho de Cheshire, louco de ansiedade, insistiu veementemente em se lhes juntar, mas mr. Otis opôs-se temendo que se travasse ali uma desordem. Ao chegar, porém, ao sítio em vista, descobriu que os ciganos haviam desaparecido. O lume, que ardia ainda, e alguns pratos dispersos pelo solo denunciavam claramente uma retirada repentina.&lt;br /&gt;Depois de ter ordenado a Washington e aos dois homens que explorassem as circunvizinhanças, mr. Otis regressou a toda a pressa e expediu telegramas para todos os inspectores de polícia do Condado, pedindo-lhes que procurassem uma menina que fora raptada por vagabundos ou ciganos. Em seguida, mandou que lhe selassem o cavalo, intimou a esposa e os três rapazes a tomarem o seu jantar e, acompanhado de um lacaio, dirigiu-se para Ascot. Mas mal percorrera duas milhas ouviu atrás de si um galope. Voltando-se, descortinou o duquezinho, que vinha montado no seu poldro, o rosto muito afogueado e cabelos ao vento.&lt;br /&gt;- Lamento muito - disse o rapazinho numa voz ofegante -, mas não poderei jantar enquanto Virgínia não for encontrada. Peço-lhe que não se zangue. Se o senhor tivesse consentido, o ano passado, no nosso ajuste de casamento, nada disto teria sucedido. Não vai mandar-me para trás, não é verdade? Eu não quero ir para casa! Não quero ir para casa!&lt;br /&gt;O Ministro não pôde impedir-se de sorrir ao juvenil e encantador doidivanas e sentiu-se muito comovido com a devoção dele por Virgínia. Inclinando-se do alto do seu cavalo, deu uma palmada no ombro do rapaz e disse:&lt;br /&gt;- Pois bem, Cecil, se você não quer ir para casa, tenho de levá-lo comigo, suponho. Comprar-lhe-ei um chapéu em Ascot.&lt;br /&gt;- O chapéu que vá para o diabo! Da Virgínia é que eu preciso! - exclamou, a rir, o duquezinho.&lt;br /&gt;Galoparam até à estação do caminho de ferro, onde mr. Otis perguntou se não tinha sido ali vista, na gare, qualquer pessoa correspondendo aos sinais de Virgínia; mas não pôde obter qualquer indicação. Contudo, o chefe da estação telegrafou para todas as outras estações da linha e prometeu fazer exercer por toda a parte uma severa vigilância. Depois de ter comprado um chapéu para o duquezinho a um comerciante de novidades, que ia precisamente naquele momento encerrar a sua loja, mrs. Otis dirigiu-se para Bexley, aldeia a quatro milhas dali, a qual, segundo lhe haviam dito, era local de encontro dos ciganos, por lá haver um prado comunal. Chegados a esse sítio, mr. Otis e o seu companheiro acordaram o guarda campestre mas não puderam extrair dele a menor informação e, após terem percorrido o prado inteiro, retomaram o caminho de casa e alcançaram o Parque Canterville pelas onze horas da noite, completamente esgotados e desesperados. Washington e os gémeos esperavam-nos ao pé do gradeamento com lanternas, porque a alameda estava muito escura.&lt;br /&gt;Não se conseguira descobrir o mais leve rasto de Virgínia. Os ciganos tinham sido concentrados nas pradarias de Brockley, mas a jovem não se encontrava entre eles. Uma confusão de datas explicava a sua brusca partida: a feira de Chorton, que se realizava mais cedo do que pensavam, obrigara-os a abalar a toda a pressa. A verdade é que até eles haviam ficado consternados ao saberem do desaparecimento de Virgínia, porque guardavam grande reconhecimento a mr. Otis por este lhes ter permitido acamparem no seu parque, e quatro companheiros do bando ficaram para trás a fim de colaborarem nas pesquisas. O tanque das carpas fora esvaziado e todo o domínio batido de lés a lés, mas sem resultado. Era forçoso renderem-se à evidência: pelo menos naquela noite, Virgínia estava perdida para eles; e, profundamente abatidos, mr. Otis e os rapazes dirigiram-se para casa seguidos do lacaio, o qual conduzia à mão os dois cavalos e o poldro.&lt;br /&gt;Encontraram no átrio um grupo de criados cheios de medo. A pobre mrs. Otis estava estendida num divã da biblioteca, semi-louca de inquietação e de pavor; a velha governanta banhava-lhe a fronte com água de Colónia. Mr. Otis insistiu imediatamente com ela para que tomasse qualquer alimento e mandou servir o jantar para todos.&lt;br /&gt;Foi uma bem triste refeição, em que quase se não proferiu palavra. Os próprios gémeos estavam aterrados, amachucados, porque adoravam a irmã. No fim do jantar mr. Otis, não obstante os rogos do duquezinho, ordenou que todos se deitassem, dizendo que nenhuma outra coisa poderia ser feita nessa noite e que, no dia seguinte de manhã, telegrafaria à Scotland Yard, para lhe serem enviados imediatamente alguns agentes.&lt;br /&gt;Precisamente no instante em que saíam da sala de jantar soava a meia-noite no relógio da torre e, quando retiniu a décima segunda pancada, ouviram todos um enorme estrondo, seguido de um grito penetrante. Um formidável trovão abalou a casa, os acordes de uma harmonia irreal flutuaram no espaço, no alto da escadaria abriu-se um dos panos das paredes e, no patamar, apareceu Virgínia, muito pálida, com um cofrezinho na mão.&lt;br /&gt;Foi um instante enquanto todos se precipitaram para ela. Mrs. Otis abraçou-a apaixonadamente, o duque afogou-a com a violência dos seus beijos, e os gémeos executaram em volta do grupo uma dança guerreira.&lt;br /&gt;- Santo Deus, donde vens tu?! - perguntou mr. Otis numa voz bastante irritada, ao pensar que a filha lhes tinha pregado uma partida insensata -. Cecil e eu cavalgámos toda a região, à tua procura, e tua mãe esteve prestes a morrer de angústia. Aconselho-te a não voltares a entregar-te a farsas tão estúpidas como esta.&lt;br /&gt;- Excepto contra o fantasma! Excepto contra o fantasma! - bradaram os gémeos entre mil piruetas.&lt;br /&gt;- Minha querida, graças a Deus tenho-te aqui! É preciso que nunca mais me deixes - murmurou mrs. Otis, enlaçando a criança, a qual tremia e alisava os seus caracóis de ouro todos emaranhados.&lt;br /&gt;- Papá - disse Virgínia num tom calmo - eu estava com o fantasma. Ele morreu. Devem ir vê-lo. Era muito mau, mas arrependeu-se verdadeiramente do que fez e, antes de morrer, deu-me este cofrezinho com maravilhosas jóias.&lt;br /&gt;Toda a família a fitava, os olhos escancarados de surpresa, mas ela permanecia grave e séria; desviando-se, guiou-os através de uma abertura no forro de madeira das paredes até um estreito corredor secreto. Washington seguia-os empunhando uma vela que havia tirado de cima da mesa. Chegaram por fim a uma grande porta de carvalho ornada de pregos cheios de ferrugem. Quando Virgín&lt;br /&gt;ia lhe tocou a porta girou nos gonzos, e encontraram-se todos numa salinha baixa, de tecto de abóbada e cujo único meio de renovação do ar era uma minúscula janela gradeada. Uma enorme argola de ferro estava chumbada à parede e, encadeado à argola, via-se um grande esqueleto estendido ao comprido no chão de pedra, parecendo tentar agarrar uma escudela velha e uma bilha colocada fora do seu alcance. A bilha devia ter contido outrora água, porque se mostrava por dentro coberta de bolor. Na escudela não existia senão urna camada de pó.&lt;br /&gt;Virgínia ajoelhou-se junto do esqueleto e, juntando as delicadas mãos, pôs-se a rezar em silêncio, enquanto a horrível tragédia cujo segredo lhe era assim revelado.&lt;br /&gt;- Olhem! - gritou de repente um dos gémeos, o qual se dependurara da janela para observar em que ala da edificação se situava aquele quarto. - Olhem! A velha amendoeira toda sequinha está em flor! Vêem-se muito bem as flores, à claridade do luar.&lt;br /&gt;- Deus perdoou-lhe - proferiu gravemente Virgínia, erguendo-se; e uma luz maravilhosa parecia banhar-lhe o rosto.&lt;br /&gt;- És um anjo! - exclamou o duquezinho, que lhe lançou um braço à volta do pescoço, estreitando-a contra si.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-4394530348785907160?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/4394530348785907160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-vi.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4394530348785907160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4394530348785907160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-vi.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO VI'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-4339607915741607125</id><published>2009-01-27T23:33:00.000-02:00</published><updated>2009-01-27T23:34:25.807-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A DONZELA E O FANTASMA'/><title type='text'>A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO VII</title><content type='html'>CAPÍTULO VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro dias após estes curiosos acontecimentos, um préstito fúnebre deixava o Parque Canterville pelas onze horas da noite. Oito cavalos negros puxavam o carro mortuário e sobre as cabeças deles agitavam-se grandes penachos de plumas de avestruz. Um sumptuoso pano cor de púrpura, que as armas dos Cantervilles, bordadas a ouro, ornavam, cobria o caixão de chumbo. Junto do carro marchavam os criados empunhando tochas e todo o cortejo assumia singular imponência.&lt;br /&gt;Lorde Canterville dirigia o enterro. Tinha vindo expressamente do País de Gales para assistir à cerimónia e ocupava a primeira carruagem, acompanhado da jovem Virgínia. A seguir iam o Ministro dos Estados Unidos e a esposa, depois Washington e os três rapazes, e por fim, na carruagem da cauda, mrs. Umney. Partiu-se da convicção de que a governanta, que durante mais de cinquenta anos havia sido apoquentada pelo fantasma, tinha o direito de o ver desaparecer para sempre. Fora cavada num canto do cemitério uma profunda sepultura, precisamente sob a ramagem do velho teixo, e as preces foram proferidas pelo Rev. Augustus Dampier da maneira mais impressionante.&lt;br /&gt;No termo da cerimónia, os criados, conforme um costume tradicional na família Canterville, apagaram as suas tochas e no momento da descida do caixão ao coval Virgínia avançou e depôs sobre ele uma grande cruz tecida de rosas e flores de amendoeira. Simultaneamente, a Lua surgiu de trás de uma nuvem e, com as suas ondas silenciosas e argênteas, iluminou o pequeno cemitério; e do recesso de uma moita, a distância, subiu o canto de um rouxinol. A jovem recordou a descrição que o fantasma fizera do Jardim da Morte. Velaram-se-lhe de lágrimas os olhos e mal articulou palavra durante o caminho de regresso.&lt;br /&gt;No dia seguinte de manhã, antes do lorde Canterville partir para Londres, mr. Otis conferenciou com ele a respeito das jóias dadas a Virgínia pelo fantasma. Eram de notável magnificência, em especial certo colar de rubis com um engaste veneziano, admirável trabalho do século dezasseis, e o valor delas todas era tal que mr. Otis sentia grandes escrúpulos em consentir que a filha as aceitasse.&lt;br /&gt;- Lorde Canterville - disse o Ministro -, eu sei que o regime dos bens chamados de mão-morta é aplicável neste país tanto às jóias como às terras, e parece-me evidente que estas jóias de família lhe pertencem, por conseguinte. Devo, pois, pedir-lhe que as leve para Londres e que as considere simplesmente como uma parte da vossa herança, agora restituída em inesperadas circunstâncias. Quanto à minha filha, ela é ainda uma criança e (sinto-me feliz em dizê-lo) não presta mais do que medíocre interesse a esses vãos acessórios de luxo. Para mais, minha mulher, que, ouso afirmá-lo, é em matéria de arte uma autoridade com a qual é necessário contar - ela gozou do privilégio de passar muitos Invernos em Boston quando ainda solteira - comunicou-me terem essas jóias elevado valor monetário. Postas à venda, atingiriam altíssimo preço. Nestas condições, lorde Canterville, estou certo de que compreenderá não poder eu permitir a nenhum membro da minha família conservá-las na sua posse. E, em boa verdade, todos esses frívolos, adornos, por mais adequados ou indispensáveis que sejam à dignidade da aristocracia inglesa, estariam em absoluto deslocados entre pessoas educadas nos princípios severos e, suponho, imortais, da simplicidade republicana. Talvez me seja lícito acrescentar que Virgínia deseja vivamente que a autorize a guardar para ela o cofrezinho, a título de recordação dos desvairos e dos infortúnios desse vosso antepassado. Visto que o cofre se acha muito velho e muito estragado, talvez o senhor julgue razoável deferir o pedido. Pela minha parte, confesso estar bastante surpreendido vendo um dos meus filhos exprimir simpatia pelas coisas medievais, seja sob que aspecto for, e não posso explicar isto a mim próprio senão pelo facto de Virgínia ter nascido num dos vossos arrabaldes londrinos pouco tempo depois da chegada de minha mulher, que regressava de uma viagem a Atenas.&lt;br /&gt;Lorde Canterville escutou com muita gravidade o discurso do digno Ministro, repuxando de quando em quando as pontas do seu bigode grisalho para dissimular um sorriso involuntário; e quando mr. Otis acabou de falar, apertou-lhe a mão cordialmente e disse:&lt;br /&gt;- Meu caro senhor, a sua encantadora filhinha prestou a sir Simon, meu infeliz avoengo, um serviço de importância, e eu e a minha família devemos muito à maravilhosa coragem dela. Claro está que as jóias lhe pertencem; e, por minha fé, creio que se eu tivesse tão pouco coração que lhas tirasse, o maroto do velho sairia, antes de quinze dias decorridos, do seu túmulo e arranjar-me-ia uma vida de inferno. Quanto a constituírem jóias de família, tal só seria possível se figurassem num testamento ou em documento legal, e a existência dessas jóias era-me completamente desconhecida. Asseguro-lhe que não tenho mais direitos sobre elas do que, por exemplo, o seu mordomo, e, ouso dizê-lo, quando miss Virgínia for crescida desvanecer-se-á ao usar esses lindos objectos. O senhor esquece também, mr. Otis, que comprou em conjunto a propriedade e o fantasma passou, implícita e imediatamente, para a sua posse, pois por maior actividade de que sir Simon tenha dado sinal durante a noite, nos corredores da casa, ele estava verdadeiramente morto do ponto de vista jurídico, e a aquisição feita pelo senhor tornou-o possuidor dos bens dele.&lt;br /&gt;Mr. Otis, muito comovido com a recusa de lorde Canterville, suplicou-lhe que reconsiderasse na sua decisão, mas o excelentíssimo membro da Câmara Alta inglesa permaneceu firme e, acabou por persuadir o Ministro a que consentisse à filha guardar o presente do fantasma.&lt;br /&gt;E quando, na Primavera de 1890, a jovem duquesa de Cheshire foi, por ocasião do seu casamento, apresentada a primeira vez na recepção da Rainha, as jóias que ostentava tornaram-se tema da admiração geral. Porque Virgínia recebeu a coroa, que é a recompensa de todas as boas meninas americanas, e desposou aquele que a amava desde a infância logo que ele atingiu a idade conveniente.&lt;br /&gt;Eram ambos, tão sedutores e amavam-se tanto, que esta união encantava toda a gente, salvo a velha marquesa de Dumbleton, que havia tentado apoderar-se do duque para uma das suas sete filhas ainda solteiras e que, com esse desígnio, dera nada menos que três dispendiosos jantares; e se bom que possa parecer estranho, também não encantava o próprio mr. Otis. O ministro sentia pelo duquezinho uma grande afeição, mas, em teoria, não era partidário de títulos nobiliárquicos e, para empregar mesmo palavras suas, «temia um tanto que, por causa da influência amolecedora da aristocracia apaixonada pelo prazer, os verdadeiros princípios da simplicidade republicana fossem esquecidos». Mas houve quem deitasse por terra as suas objecções; e creio bem que, ao avançar com a filha pelo braço, na nave da igreja de S. Jorge, da Praça Hanover, não houve, no instante, homem mais orgulhoso do que ele na Inglaterra inteira.&lt;br /&gt;Após a sua «lua de mel», o duque e a duquesa voltaram ao Parque Canterville; e no dia seguinte ao da chegada foram, pela tarde, de passeio até ao cemitério solitário circunvizinho do pinhal&lt;br /&gt;A escolha da inscrição para a lousa tumular de sir Simon tinha levantado muitas dificuldades, mas fora finalmente decidido mandar gravar nela as simples iniciais do velho aristocrata e os versos inscritos na biblioteca.&lt;br /&gt;A duquesa havia levado consigo umas rosas adoráveis, que espalhou sobre a sepultura; e depois de se conservarem em recolhimento bastantes minutos, os jovens foram, sempre passeando, até ao santuário em ruínas da velha Abadia. Sentou-se então a duquesa numa pilastra mutilada do templo, enquanto o marido, estendido a seus pés, fumava um cigarro, o olhar fito nos belos olhos da rapariga. De súbito, arremessando para longe o cigarro, pegou-lhe na mão e disse-lhe:&lt;br /&gt;- Virgínia, uma mulher não deve ter segredos para seu marido.&lt;br /&gt;- Querido Cecil, não tenho segredos para ti.&lt;br /&gt;- Tem-los, sim - replicou ele a sorrir; - tu nunca me disseste o que te aconteceu quando estiveste encerrada com o fantasma.&lt;br /&gt;- Nunca o disse a ninguém - respondeu Virgínia com ar grave.&lt;br /&gt;- Sei isso, mas podias dizer-mo a mim.&lt;br /&gt;- Não me peças tal, Cecil; eu não posso dizer-to. Pobre sir Simon! Devo-lhe muito. É verdade; não rias, Cecil. Mostrou-me o que é a Vida, o que significa Morte e porque razão o Amor é mais forte do que a Vida e a Morte.&lt;br /&gt;O duque, pondo-se de pé, abraçou com ternura sua mulher.&lt;br /&gt;- Podes reservar o teu segredo por tanto tempo quanto eu guardarei o teu coração - murmurou.&lt;br /&gt;- Ele sempre te pertenceu, Cecil&lt;br /&gt;- E di-lo-ás um dia aos nossos filhos, não é verdade?&lt;br /&gt;Carminaram-se, de pejo, as faces de Virgínia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-4339607915741607125?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/4339607915741607125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-vii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4339607915741607125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4339607915741607125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/donzela-e-o-fantasma-capitulo-vii.html' title='A DONZELA E O FANTASMA - CAPÍTULO VII'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-1772072900667884093</id><published>2009-01-27T21:17:00.004-02:00</published><updated>2009-01-27T22:12:50.351-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O AMIGO DEDICADO'/><title type='text'>O AMIGO DEDICADO</title><content type='html'>O AMIGO DEDICADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa manhã o velho Rato d'água pôs a cabeça fora do buraco. Tinha uns olhos redondos muito vivos e uns duros bigodes cinzentos, e sua cauda parecia um comprido elástico negro. Os patinhos estavam a nadar na lagoa, semelhantes a um bando de canários amarelos, e a sua mãe, toda branca com patas vermelhas, esforçava-se por ensinar-lhes a manter a cabeça dentro d'água.&lt;br /&gt;- Vocês nunca poderão frequentar a boa sociedade, se não aprenderem a manter a cabeça dentro d'água&lt;br /&gt;- dizia-lhes. E de vez em quando mostrava-lhes como devia ser feito. Mas os patinhos não lhe prestavam atenção alguma. Eram tão jovens que não sabiam que vantagens existem nisso de frequentar a sociedade.&lt;br /&gt;- Que criaturas desobedientes!&lt;br /&gt;- exclamou o velho Rato d'água.&lt;br /&gt;- Mereciam realmente afogar-se.&lt;br /&gt;- Nada disso&lt;br /&gt;- replicou a Pata -, todos têm de ter aprendizagem e nunca é demais a paciência dos pais.&lt;br /&gt;- Ah! Não tenho a menor ideia a respeito dos sentimentos paternos&lt;br /&gt;- disse o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Não sou pai de família. Na verdade, nunca me casei e nunca pensei em fazê-lo. Indubitavelmente, o amor é uma boa coisa, à sua maneira, mas a amizade vale mais. Asseguro-lhe que não conheço no mundo nada mais nobre ou mais raro do que uma amizade dedicada.&lt;br /&gt;- E diga-me, rogo-lhe: que idéia forma o senhor dos deveres de um amigo dedicado?&lt;br /&gt;- perguntou um Pintarroxo verde que tinha escutado a conversa, pousado num salgueiro retorcido.&lt;br /&gt;- Sim, é isto precisamente o que eu desejaria saber&lt;br /&gt;- disse a Pata. E nadou para o extremo da lagoa, de cabeça erguida, a fim de dar um bom exemplo ao seus filhos.&lt;br /&gt;- Pergunta tola!&lt;br /&gt;- gritou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Como é natural, entendo por amigo dedicado aquele que a mim se dedica.&lt;br /&gt;- E que fará o senhor para retribuir-lhe?&lt;br /&gt;- perguntou o passarinho, balançando- se num ramo prateado e agitando as suas asinhas.&lt;br /&gt;- Não o compreendo&lt;br /&gt;- respondeu o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Permita-me que lhe conte uma história a respeito deste assunto&lt;br /&gt;- disse o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- Refere-se a mim essa história?&lt;br /&gt;- falou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Se assim for, eu a escutarei, pois sou doido por ficção.&lt;br /&gt;- É aplicável ao senhor&lt;br /&gt;- respondeu o Pintarroxo, que abriu as asas e desceu, pousando na beira do tanque, e contou a história do Amigo Dedicado.&lt;br /&gt;- Era uma vez&lt;br /&gt;- disse o Pintarroxo -, um honrado rapaz chamado Hans.&lt;br /&gt;- Era um homem verdadeiramente distinto?&lt;br /&gt;- perguntou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Não&lt;br /&gt;- respondeu o Pintarroxo -, não creio que fosse absolutamente distinto, exceto pelo seu bom coração e pela sua cara redonda, morena e afável. Morava numa pobre casinha de campo, sozinho, e todos os dias trabalhava no seu jardim. Em toda a região não havia jardim tão bonito como o dele. Cresciam nele cravinas, goivos, bolsas-de-pastor, saxifragas. Havia rosas de Damasco e rosas amarelas, açafrões cor de lilás e cor de ouro, violetas roxas e brancas. E, segundo os meses e por sua ordem, floresciam rosas silvestres e cardaminas, manjeronas e manjericões silvestres, a primavera e o íris, o narciso e o cravo vermelho. Uma flor substituía a outra, de modo que havia sempre ali coisas bonitas para ver e odores agradáveis para aspirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O pequeno Hans tinha muitos amigos, porém o mais dedicado de todos era o corpulento Hugo, o Moleiro. Na verdade, tão dedicado era o rico Moleiro ao pequeno Hans que nunca andava pelo jardim dele sem inclinar-se sobre os canteiros e colher um grande ramalhete ou um punhado de ervas-doces, ou encher os bolsos com ameixas e cerejas, quando era tempo de frutas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Os amigos verdadeiros repartem tudo entre si&lt;br /&gt;- costumava dizer o Moleiro e o pequeno Hans balançava a cabeça e sorria, sentindo-se muito orgulhoso por ter um amigo com tão nobres idéias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Algumas vezes, na realidade, achavam os vizinhos estranho que o rico Moleiro nunca desse nada em retribuição ao pequeno Hans, embora possuísse centenas de sacos de farinha armazenados no seu moinho, seis vacas leiteiras e um grande rebanho de carneiros com muita lã. Mas Hans nunca se preocupava com essas coisas e nada lhe dava maior prazer do que escutar todas as coisas maravilhosas que o Moleiro costumava dizer a respeito da solidariedade dos verdadeiros amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«De modo que cultivava o pequeno Hans o seu jardim. Na primavera, no verão e no outono sentia-se muito feliz, mas quando chegava o inverno e não tinha nem frutos nem flores que levar ao mercado, padecia de muito frio e muita fome e muitas vezes tinha de ir para a cama sem qualquer refeição, a não ser umas peras secas ou algumas nozes duras. Também no inverno, ficava extremamente solitário, uma vez que o Moleiro nunca ia vê-lo então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Não está bem que eu vá ver o pequeno Hans, enquanto duram as neves&lt;br /&gt;- costumava o Moleiro dizer à sua mulher -, pois quando as pessoas se acham em apuros, devem ser deixadas sozinhas e não serem incomodadas com visitas. Esta é, pelo menos, a minha opinião a respeito da amizade e estou certo de que é uma opinião bem acertada. Por isso esperarei que a primavera chegue e então irei visitá-lo, podendo ele dar-me um grande cesto de primaveras, coisa que bastante o alegrará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- És realmente bastante solícito para com os outros respondia-lhe a mulher, sentada na sua cómoda cadeira de braços, junto aum bom fogo de pinheiro.&lt;br /&gt;- És realmente bastante solícito. É um verdadeiro prazer ouvir-te falar a respeito da amizade. Estou certa de que o próprio senhor Cura não poderia dizer coisas tão belas como tu, embora viva numa casa de três andares e use um anel de ouro no dedo mindinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Mas não poderíamos convidar o pequeno Hans a vir aqui?&lt;br /&gt;- perguntava o filho mais novo do Moleiro.&lt;br /&gt;- Se o pobre Hans se acha em apuros, dar-lhe-ei a metade da minha sopa e mostrar-lhe-ei os meus coelhos brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Que menino pateta és tu!&lt;br /&gt;- gritou o Moleiro.&lt;br /&gt;- Na verdade não sei para que serve mandar-te à escola. Parece que não aprendes nada. Ora, se o pequeno Hans viesse aqui e visse o nosso ardente fogo, a nossa boa ceia e a nossa grande barrica de vinho tinto, poderia sentir inveja e a inveja é um coisa terrível que deita a perder os melhores carácteres. Não permitirei, certamente, que o carácter de Hans venha a ser prejudicado. Sou o seu melhor amigo e velarei sempre por ele e terei todo o cuidado em não expô-lo a nenhuma tentação. Além disso, se Hans viesse aqui poderia pedir-me que lhe desse, fiado, um pouco de farinha e isto eu não poderia fazer. A farinha é uma coisa e a amizade é outra e não devem ser confundidas. Ora, estas duas palavras escrevem-se de maneira diferente e significam coisas completamente diferentes. Toda gente pode ver isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Como falas bem!&lt;br /&gt;- disse a mulher do Moleiro, servindo-lhe um copo de cerveja quente. Sinto-me até como que adormecida. O mesmo que se estivesse na igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Muita gente age bem&lt;br /&gt;- replicou o Moleiro -, muito poucos, porém, sabem falar bem, o que mostra que falar é das duas coisas a mais difícil, bem como a mais bela das duas.&lt;br /&gt;- E olhou severamente por cima da mesa para o seu filho que se sentiu tão envergonhado, que baixou a cabeça, ficou totalmente vermelho e começou a chorar dentro do seu chá. Contudo, era tão jovem que não se podia deixar de desculpá-lo».&lt;br /&gt;- É este o fim da história?&lt;br /&gt;- perguntou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- - Decerto que não, respondeu o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- Isto é o começo.&lt;br /&gt;- Então você está muito atrasado em relação à sua época&lt;br /&gt;- replicou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Hoje em dia, todo bom contador de histórias começa pelo fim, depois passa para o começo e conclui com o meio. Este é o novo método. Ouvi tudo isto, outro dia, de um crítico que estava passeando em redor da lagoa com um rapaz. Tratava do assunto magistralmente e estou certo de que devia estar com razão, porque usava óculos azuis e tinha a cabeça calva. E quando o rapaz fazia alguma observação sempre respondia:  «Patetice!» Mas rogo-lhe que prossiga com a sua história. Estou a gostar muito do Moleiro. Eu mesmo possuo toda espécie de belos sentimentos, de modo que existe entre nós uma grande simpatia.&lt;br /&gt;- Bem&lt;br /&gt;- disse o Pintarroxo, saltitando, ora sobre uma, ora sobre outra das suas pernas -, assim que o inverno passou e as primaveras começaram a abrir as suas pálidas estrelas amarelas o Moleiro disse à sua mulher que iria visitar o pequeno Hans.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Ah! Que bom coração tens tu!&lt;br /&gt;- exclamou a Mulher.&lt;br /&gt;- Tu estás sempre a pensar nos outros. Não te esqueças de levar contigo o cesto grande para trazer as flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Depois o Moleiro amarrou umas nas outras as aspas do moinho com uma forte corrente de ferro e desceu a colina com o cesto no braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bom dia, pequeno Hans&lt;br /&gt;- disse o Moleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bom dia&lt;br /&gt;- disse Hans, apoiando-se na sua enxada e sorrindo largamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Como passaste o inverno?&lt;br /&gt;- perguntou o Moleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, na verdade&lt;br /&gt;- exclamou Hans.&lt;br /&gt;- É muita bondade da sua parte perguntar-me isso, muita bondade mesmo. Receio ter passado uns maus bocados, mas agora a primavera chegou e sinto-me completamente feliz... além disto as minhas flores estão indo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Falamos frequentes vezes de ti, durante o inverno, Hans&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, imaginando como estarias a passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Foi bondade do senhor&lt;br /&gt;- disse Hans.&lt;br /&gt;- Estava quase com medo de que o senhor me tivesse esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Hans, surpreende-me ouvi-lo falar desse modo&lt;br /&gt;- disse o Moleiro.&lt;br /&gt;- A amizade nunca esquece. Esta é a coisa maravilhosa que nela existe, mas receio que não compreendas a poesia da vida... A propósito, como estão bonitas as tuas primaveras!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Sim, estão verdadeiramente muito bonitas&lt;br /&gt;- disse Hans&lt;br /&gt;- e é para mim uma grande sorte ter tantas. Vou levá-las ao mercado e vendê-las à filha do Burgomestre e com este dinheiro comprarei outra vez o meu carrinho de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Comprar outra vez o teu carrinho de mão? Queres dizer então que o vendeste? Mas que coisa estúpida fizeste!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, o facto é que fui obrigado a fazê-lo&lt;br /&gt;- disse Hans.&lt;br /&gt;- Como o senhor sabe, o inverno é uma estação muito má para mim e, na realidade, não tinha dinheiro algum para comprar pão, de modo que vendi primeiro os botões de prata da minha roupa domingueira, depois vendi a minha corrente de prata, em seguida vendi a minha grande flauta, e por fim vendi o meu carrinho de mão. Mas vou comprar tudo de novo agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Hans&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, dar-te-ei o meu carrinho de mão. Não está em muito bom estado. Na verdade, um dos lados está a faltar e estão um tanto torcidos os raios da roda, mas a despeito disso, dar-te-ei o carro. Sei que é uma grande generosidade de minha parte e muita gente pensará que foi uma loucura extrema da minha parte desfazer-me dele, mas não sou como o resto do mundo. Creio que a generosidade é a essência da amizade e, além disso, eu mesmo comprei um novo carrinho de mão. Sim, podes estar tranquilo, dar-te- ei o meu carrinho de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, na verdade, é muita generosidade da sua parte&lt;br /&gt;- disse o pequeno Hans, e a sua redonda e engraçada carinha brilhou toda de prazer.&lt;br /&gt;- Poderei facilmente consertá-lo, pois tenho um pedaço de tábua na minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Um pedaço de tábua!&lt;br /&gt;- exclamou o Moleiro.&lt;br /&gt;- Muito bem! É disso precisamente que preciso para o telhado do meu paiol. Está com uma grande brecha e se não o tapar, todo o trigo ficará molhado. Que felicidade teres mencionado essa tábua! É realmente de notar como uma boa acção engendra sempre outra. Dei-te o meu carrinho de mão e agora tu vais dar-me a tua tábua. É claro que o carrinho de mão vale muito mais do que a tábua: mas a verdadeira amizade nunca repara coisas como essas. Dá-me logo a tábua e hoje mesmo porei mãos à obra para consertar o meu paiol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Sem dúvida&lt;br /&gt;- gritou o pequeno Hans, que foi a correr para o telheiro donde trouxe a tábua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Não é uma tábua muito grande&lt;br /&gt;- disse o Moleiro, examinando-a -, e receio que, uma vez feito o conserto do telhado do paiol, não sobre madeira suficiente para o conserto do carrinho, mas, é claro, isso não é minha culpa... E agora, uma vez que te dei o meu carrinho de mão estou certo de que haverás de querer dar-me algumas flores em troca. Aqui tens o cesto: procura enchê-lo completamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Completamente?&lt;br /&gt;- exclamou o pequeno Hans, bastante aflito, porque o cesto era mesmo muito grande e sabia que, se o enchesse, não lhe sobrariam flores para o mercado e estava bastante ansioso por poder resgatar os seus botões de prata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, na verdade&lt;br /&gt;- respondeu o Moleiro -, uma vez que te dou o meu carrinho de mão, não penso que seja demasiado pedir-te algumas flores. Posso estar equivocado, mas deveria ter pensado que a amizade, a verdadeira amizade, estivesse completamente isenta de egoísmo de qualquer espécie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Meu querido amigo, meu melhor amigo&lt;br /&gt;- exclamou o pequeno Hans -, todas as flores do meu jardim estão à sua disposição, porque me importa muito mais a sua estima do que os meus botões de prata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- E correu a colher as lindas primaveras e a encher com elas o cesto do Moleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Adeus, pequeno Hans&lt;br /&gt;- disse o Moleiro, subindo de novo a colina com a tábua ao ombro e o seu grande cesto na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Adeus&lt;br /&gt;- disse o pequeno Hans, que se pôs a cavar alegremente, pois estava contentíssimo por ter um carrinho de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Na manhã seguinte, quando estava pregando umas madressilvas no seu alpendre, ouviu a voz do Moleiro que o chamava da estrada, pulou da escada e desceu a correr o jardim, indo espiar por cima do muro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ali estava o Moleiro com um grande saco de farinha nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Querido Hans&lt;br /&gt;- disse o Moleiro&lt;br /&gt;- quererias levar-me este saco de farinha até ao mercado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Oh! Sinto muito!&lt;br /&gt;- disse Hans -, mas na verdade estou muito ocupado hoje.&lt;br /&gt;- Tenho que pregar todas as minhas trepadeiras, tenho de regar todas as minhas flores e cortar toda a relva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, na verdade&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, penso que, levando em conta que vou dar-te o meu carinho de mão, é pouco amistoso da tua parte essa recusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Oh! Não diga isso&lt;br /&gt;- exclamou o pequeno Hans.&lt;br /&gt;- Por coisa alguma do mundo haveria eu de esquecer-me da minha amizade pelo senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- E correu a buscar o seu chapéu e partiu com o grande saco nos ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Era um dia muito quente e a estrada estava terrivelmente empoeirada, e antes de ter Hans alcançado o marco que indicava a sexta milha, achava-se tão cansado, que teve de sentar-se para descansar. Não obstante, continuou corajosamente o seu caminho, chegando por fim ao mercado. Depois de ter esperado ali algum tempo, vendeu o saco de farinha por muito bom preço e regressou à sua casa imediatamente, porque temia encontrar algum salteador no caminho, se se atrasasse muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Foi na verdade um dia duro!&lt;br /&gt;- disse Hans a si mesmo, ao ir deitar-se -, mas alegra-me muito por não ter recusado um favor ao Moleiro, que é o meu melhor amigo, e além disso vai dar-me o seu carrinho de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem cedo na manhã seguinte, apareceu o Moleiro para buscar o dinheiro da venda do seu saco de farinha, mas o pequeno Hans estava tão cansado que ainda não se havia levantado da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Palavra de honra&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, és muito preguiçoso. Na verdade, quando penso que vou dar-te o meu carrinho de mão, acho que podias trabalhar com mais ardor. A preguiça é um grande pecado e eu certamente não gostaria de que algum dos meus amigos fosse preguiçoso e apático. Não te zangues, se te estou a falar completamente sem rodeio. É claro que não te falaria assim, se não fosse teu amigo. Mas de que servirá a amizade, se não se pudesse dizer claramente o que se pensa? Toda a gente pode dizer coisas encantadoras e tentar agradar e lisonjear; mas um amigo sincero diz sempre coisas desagradáveis e não receia causar pesar. Pelo contrário, se é um amigo verdadeiro, prefere isso, porque sabe que assim está fazendo o bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Sinto muito&lt;br /&gt;- respondeu o pequeno Hans, esfregando os olhos e tirando o barrete de dormir -, mas eu estava tão cansado que pensei que poderia ficar na cama um pouco mais e ouvir os pássaros a cantarem. Sabe o senhor que sempre trabalho melhor depois de ouvir os pássaros cantarem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, tanto melhor&lt;br /&gt;- disse o Moleiro, dando uma palmadinha nas costas de Hans -, pois necessito de que venhas ao moinho, assim que te tiveres vestido, para consertar-me o telhado do paiol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O pequeno Hans tinha grande necessidade de ir trabalhar no seu jardim, porque havia dois dias que não regava as suas flores, mas não quis dizer não ao Moleiro, que tão bom amigo era para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Pensa que seria pouco amistoso da minha parte, se dissesse que tenho muito que fazer?&lt;br /&gt;- perguntou ele com voz humilde e tímida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, realmente&lt;br /&gt;- respondeu o Moleiro -, não creio que seja demais pedir-te isso, levando em conta que vou dar-te o meu carrinho de mão; mas, sem dúvida, se recusares, eu mesmo irei fazer o trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh! De modo algum!&lt;br /&gt;- exclamou o pequeno Hans, que saltou da sua casa, vestiu-se e correu para o paiol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Trabalhou ali o dia inteiro, até o pôr do sol e, ao crepúsculo, o Moleiro apareceu para ver até que ponto tinha ele chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Já tapaste o buraco do telhado, pequeno Hans?&lt;br /&gt;- gritou o Moleiro, em tom alegre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Está completamente tapado&lt;br /&gt;- respondeu o pequeno Hans, descendo da escada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Ah!&lt;br /&gt;- exclamou o Moleiro.&lt;br /&gt;- Não há trabalho mais delicioso do que o que se faz para outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- É certamente um grande privilégio ouvir o senhor falar&lt;br /&gt;- disse o pequeno Hans, sentando-se e enxugando a testa -, um grande privilégio mesmo. Creio que jamais terei tão belas idéias como tem o senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Oh! Haverás de tê-las&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, mas deves esforçar-te mais. Por ora tens apenas a prática da amizade. Algum dia possuirás a teoria também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Acha realmente que eu terei?&lt;br /&gt;- perguntou o pequeno Hans.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Não tenho dúvida alguma&lt;br /&gt;- respondeu o Moleiro -, mas agora que consertaste o telhado, farias melhor indo para casa descansar, pois quero que leves os meus carneiros para pastar na montanha amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O pobre Hans não se atreveu a protestar e no dia seguinte, ao amanhecer, o Moleiro conduziu os seus carneiros até perto da casinha de Hans que partiu com eles para a montanha. Entre ir e voltar passou-se o dia, e, quando regressou, estava tão cansado que adormeceu na sua cadeira e só veio a acordar bem entrada a manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Que delicioso tempo para trabalhar no meu jardim!&lt;br /&gt;- disse ele, pondo-se a trabalhar imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas seja como for, não teve tempo de dar uma olhadela às suas flores, pois o seu amigo Moleiro sempre aparecia a mandá-lo fazer recados bem longe ou a pedir-lhe que o ajudasse no moinho. Algumas vezes, o pequeno Hans ficava muito angustiado, receando que as suas flores pensassem que ele as havia esquecido, mas consolava-se ao refletir que o Moleiro era o seu melhor amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Além disso», costumava dizer,  «ele vai dar-me o seu carrinho de mão e isto é um ato de pura generosidade».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«E o pequeno Hans trabalhava para o Moleiro e este dizia coisas muito bonitas a respeito da amizade, coisas que Hans copiava para o seu livro de notas e que costumava reler à noite, pois era um grande estudioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Pois bem: aconteceu que uma noite, estando o pequeno Hans sentado junto ao fogo, ouviu fortes batidas à sua porta. Era uma noite muito tempestuosa, o vento soprava e rugia em torno da casa tão terrivelmente que a princípio pensou ele que fosse aquele rumor apenas o da tempestade. Mas soou uma segunda pancada e depois uma terceira, mais alto do que as outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Deve ser algum pobre viajante&lt;br /&gt;- disse o pequeno Hans para si mesmo, e correu para a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O Moleiro estava no umbral, com uma lanterna numa mão e um grande bastão na outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Querido Hans&lt;br /&gt;- gritou o Moleiro -, encontro-me em grande complicação. O meu menino caiu de uma escada, aleijando-se e eu vou em busca do médico. Mas ele mora tão distante e está uma noite tão má, que acaba de ocorrer-me que seria melhor que fosses em meu lugar. Sabes que vou dar-te o meu carrinho de mão, por isso estaria muito bem que fizesses alguma coisa por mim em retribuição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Decerto!&lt;br /&gt;- exclamou o pequeno Hans.&lt;br /&gt;- Alegra-me muito que me tenha vindo procurar e partirei imediatamente. Mas o senhor devia emprestar-me a sua lanterna, uma vez que a noite está tão escura que receio que possa vir a cair no fosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Sinto muitíssimo&lt;br /&gt;- respondeu o Moleiro -, mas é a minha lanterna nova e seria uma grande perda, se lhe acontecesse alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Bem, não falemos mais nisso, irei mesmo sem ela -, exclamou o pequeno Hans, vestindo o seu grande casaco de pele, pondo na cabeça o seu barrete vermelho, amarrando em torno do pescoço uma manta, e saindo imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que terrível tempestade estava desencadeada; A noite era tão negra que o pequeno Hans mal podia ver e o vento tão forte que ele dificilmente conseguia andar. Contudo, era muito corajoso e, depois de ter caminhado cerca de três horas, chegou à casa do doutor e bateu-lhe à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Quem é?&lt;br /&gt;- gritou o doutor, pondo a cabeça à janela do seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- É o pequeno Hans, doutor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- E que desejas a estas horas, meu pequeno Hans?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- O filho do Moleiro caiu de uma escada e aleijou-se, e o Moleiro quer que o senhor vá lá imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Muito bem!&lt;br /&gt;- disse o doutor. Mandou selar o seu cavalo, calçou as suas grandes botas, pegou na sua lanterna, desceu a escada e seguiu na direcção da casa do Moleiro, enquanto o pequeno Hans marchava atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas a tempestade tornou-se cada vez pior, a chuva caía em torrentes e o pequeno Hans não podia nem ver por onde ia, nem acompanhar o cavalo. Afinal, perdeu-se, e esteve a vagar pela charneca, que era um lugar muito perigoso, cheia como estava de profundos buracos, e o pequeno Hans caiu num deles e afogou-se. Na manhã seguinte, uns pastores encontraram o seu corpo boiando numa grande poça d'água e levaram-no para a sua casinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Toda a gente assistiu ao enterro do pequeno Hans, porque ele era muito popular e foi o Moleiro quem tomou a dianteira do funeral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Como fui o seu melhor amigo&lt;br /&gt;- disse o Moleiro -, não é nada de mais que eu tome o melhor lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«De modo que pôs-se à frente do cortejo com uma longa capa preta e, de vez em quando, enxugava os olhos com um grande lenço de bolso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- O pequeno Hans representa, certamente, uma grande perda para todos nós&lt;br /&gt;- disse o Ferreiro, terminado o funeral, e quando estavam todos sentados confortavelmente na estalagem, bebendo vinho temperado e comendo bolos doces.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«- Foi uma grande perda, sobretudo para mim&lt;br /&gt;- replicou o Moleiro.&lt;br /&gt;- Posso afirmar que fui bastante bom, comprometendo-me em dar-lhe o meu carrinho de mão e agora não sei realmente o que fazer com ele. Atravanca a minha casa e está em tão más condições que se o vendesse, não lucraria nada. Asseguro a vocês que daqui por diante não darei nada a ninguém. A gente paga sempre por ser generoso.»&lt;br /&gt;- E então?&lt;br /&gt;- perguntou o Rato d'água, depois de uma longa pausa.&lt;br /&gt;- Bem, este é o fim&lt;br /&gt;- disse o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- Mas o que aconteceu ao Moleiro?&lt;br /&gt;- perguntou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- Oh! Realmente não sei&lt;br /&gt;- replicou o Pintarroxo -, e, para falar a verdade, não me interessa.&lt;br /&gt;- É bastante evidente que você não possui o dom da simpatia no seu caráter&lt;br /&gt;- disse o Rato d'água.&lt;br /&gt;- O que receio é que o senhor não tenha compreendido a moral da história&lt;br /&gt;- observou o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- gritou o Rato d'água.&lt;br /&gt;- A moral.&lt;br /&gt;- Quer você dizer que a história tem uma moral?&lt;br /&gt;- Decerto&lt;br /&gt;- afirmou o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- Bem, na verdade&lt;br /&gt;- disse o Rato d'água, de um modo bastante colérico -, acho que você deveria ter-me dito isso antes de começar. Se o tivesse feito, eu certamente não o teria escutado; de fato, deveria ter dito  «Patetice!», como o crítico. Contudo posso dizê-lo agora. E gritou:  «Patetice!». No mais alto tom e, dando uma rabanada com a cauda, correu para o seu buraco.&lt;br /&gt;- Que lhe parece o Rato d'água?&lt;br /&gt;- perguntou a Pata, que chegou nadando alguns minutos depois.&lt;br /&gt;- Possui muito boas qualidades, porém eu, pela minha parte, tenho sentimentos de mãe e não posso ver um solteirão chapado, sem que me subam as lágrimas aos olhos.&lt;br /&gt;- Receio tê-lo aborrecido&lt;br /&gt;- replicou o Pintarroxo.&lt;br /&gt;- O fato é que lhe contei uma história com uma moral.&lt;br /&gt;- Ah! Isso é sempre uma coisa muito perigosa de fazer-se&lt;br /&gt;- disse a Pata. E eu concordo inteiramente com ela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-1772072900667884093?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/1772072900667884093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-amigo-dedicado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1772072900667884093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/1772072900667884093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-amigo-dedicado.html' title='O AMIGO DEDICADO'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-5185801730592820618</id><published>2009-01-27T21:17:00.003-02:00</published><updated>2009-01-27T22:12:31.561-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O NOTAVEL FOGUETE'/><title type='text'>O NOTAVEL FOGUETE</title><content type='html'>O NOTÁVEL FOGUETE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filho do rei ia casar-se. Por isto o regozijo era geral. Tinha esperado um ano inteiro pela sua noiva, que afinal chegara. Era uma princesa russa que tinha feito a viagem desde a Finlândia num trenó puxado por seis renas. O trenó tinha a forma de um grande cisne de ouro e entre as asas do cisne jazia a pequena Princesa. O seu longo manto de arminho chegava-lhe directamente aos pés, na cabeça trazia um pequeno boné de tecido de prata e era pálida como o Palácio de Neve em que sempre tinha vivido. Era tão pálida que, ao passar pelas ruas, enchia todo o povo de admiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece uma rosa branca!  - diziam e atiravam-lhe flores do alto dos balcões. Na porta do castelo estava o Príncipe esperando para recebê-la. Ele tinha uns sonhadores olhos cor de violeta e os seus cabelos eram como ouro fino. Quando a viu, dobrou um joelho na terra e beijou-lhe a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O vosso retrato era belo  - murmurou -, mas sois mais bela que o vosso retrato. E a Princesinha ruborizou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há pouco parecia uma rosa branca  - disse um jovem pajem ao seu vizinho -, mas agora parece uma rosa vermelha. E toda a corte ficou extasiada. Durante os próximos três dias, toda a gente não cessou de repetir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rosa branca, rosa vermelha, rosa vermelha, rosa branca! E o rei ordenou que se pagasse salário duplo ao Pajem. Como este não recebia salário algum, a sua posição não melhorou muito com isto, mas todos consideraram aquilo uma grande honra e o decreto real foi devidamente publicado na Gazeta da Corte. Transcorridos aqueles três dias, celebrou-se o casamento. Foi uma cerimónia magnífica. O noivo e a noiva desfilaram, de mãos dadas, sob um dossel de veludo cor de púrpura, bordado de pequenas pérolas. Depois celebrou-se um banquete oficial, que durou cinco horas. O Príncipe e a Princesa sentaram-se na extremidade do Grande Salão, bebendo duma taça de cristal puríssimo. Unicamente os verdadeiros namorados podiam beber daquela taça, porque se a tocassem lábios falsos, o cristal empanava-se, tornando-se cinzento e manchado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É bastante claro que eles se amam disse o Pajenzinho -, claro como o cristal. E o rei tornou a dobrar o salário do Pajem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que honra!  - exclamaram todos os cortesãos. Depois do banquete houve um baile. A noiva e o noivo deviam dançar juntos a Dança das Rosas e o rei prometera tocar flauta. Tocava-a muito mal, mas ninguém se havia jamais atrevido a dizer-lho, porque ele era o rei. A verdade é que só sabia duas peças e nunca estava certo de qual das duas estivesse a tocar, mas isso não o preocupava, pois, fizesse o que fizesse, toda a gente gritaria:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Encantador! Encantador! O último número do programa consistia numa grande exibição de fogos de artifício, que devia terminar exactamente à meia-noite. A Princesinha nunca vira na sua vida fogos de artifício, por isso o rei encarregou o Pirotécnico Real de utilizar todos os recursos da sua arte para o dia do casamento da Princesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com que se parecem os fogos artificiais?  - perguntou ela uma manhã ao Príncipe, enquanto passeavam no terraço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parecem-se com a aurora boreal  - disse o rei, que sempre respondia às perguntas dirigidas às outras pessoas.  - Apenas são mais naturais. Prefiro-os às estrelas, porque sabe-se sempre quando vão começar a brilhar e são, além disso, tão agradáveis como a música da minha flauta. Havereis de vê-los. Assim, pois, ergueram um tablado no fundo do jardim real e, logo que o Pirotécnico Real acabou de preparar tudo, começaram os fogos artificiais a conversar entre si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O mundo é seguramente muito bonito!  - exclamou um pequeno busca-pé. - Reparem naquelas tulipas amarelas. Puxa! se fossem petardos de verdade, não poderiam ser mais bonitas. Sinto-me muito satisfeito por ter viajado. As viagens desenvolvem o espírito de uma maneira assombrosa e acabam com todos os preconceitos que se possa ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O jardim do rei não é o mundo, meu tolo Busca-pé  - disse uma grossa Vela Romana  - o mundo é um lugar enorme e precisarias de três dias para percorrê- lo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Todo lugar que amamos é para nós o mundo  - exclamou a pensativa Roda Catarina, que, na sua infância, estivera ligada a um velho caixote de pinho e se orgulhava do seu coração destroçado.  - Mas o amor não está em moda, os poetas mataram-no. Tanto escreveram sobre ele que ninguém lhes dá crédito, o que não me surpreende. O verdadeiro amor sofre e cala. Lembro-me de que eu mesma uma vez... Mas não se trata disto agora. O romantismo é coisa do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Patetice!  - exclamou a Vela Romana.  - O romantismo nunca morre. É como a lua, que vive eternamente. A noiva e o noivo, por exemplo, amam-se muito ternamente. Inteirei-me de tudo quanto se refere a eles esta manhã, pela boca de um cartucho de papel escuro que estava na mesma gaveta que eu e que sabe as últimas notícias da corte. Mas a Roda Catarina abanou a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O romantismo morreu, o romantismo morreu, o romantismo morreu! - murmurou. Era uma dessas pessoas que pensam que, repetindo uma coisa certo número de vezes, acaba por ser verdade. De repente, ouviu-se uma tosse forte e seca e todos olharam em redor. Era um foguete de altivo porte, amarrado à ponta de uma comprida vara. Tossia sempre antes de fazer qualquer observação, como para chamar a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum! Hum!  - disse ele, e todos se dispuseram a ouvi-lo, excepto a pobre Roda Catarina, que continuava a abanar a cabeça e a murmurar: «O romantismo está morto».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ordem, ordem  - gritou um Petardo. Tinha algo de um político e sempre tomara parte importante nas eleições locais, de modo que conhecia as frases empregadas no Parlamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Completamente morto  - murmurou a Roda Catarina, que voltou a dormir. Não bem se restabeleceu por completo o silêncio, o foguete tossiu uma terceira vez e começou. Falava com voz clara e muito lenta, como se estivesse ditando as suas memórias, e olhava sempre por cima do ombro à pessoa a quem se dirigia. Tinha na verdade umas maneiras muito distintas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quão feliz é o filho do rei  - observou -, por casar-se no mesmo dia em que me vão disparar: Na verdade, nem preparando-o de antemão poderia resultar melhor para ele; mas os príncipes têm sempre muita sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah! Sim?  - disse o pequeno Busca-pé. ­ Pensei que fosse precisamente o contrário e que iríamos ser lançados em honra do Príncipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez seja este o seu caso  - respondeu ele.  - De facto, não tenho dúvida de que seja, mas comigo é diferente. Sou um foguete notável e descendo de pais notáveis. Aminha mãe foi a Roda Catarina mais famosa do seu tempo, célebre pela graça da sua dança. Quando fez a sua grande aparição em público, deu dezanove voltas antes de apagar-se, lançando em cada volta sete estrelas vermelhas no ar. Tinha três pés e meio de diâmetro e estava fabricada com pólvora da melhor. O meu pai era foguete como eu e de procedência francesa. Voava tão alto, que o povo temia que não voltasse a descer. Descia, contudo, porque era de excelente constituição e realizou uma queda brilhantíssima, em forma de chuva de chispas de ouro. Os jornais escreveram, em termos muito lisonjeadores a respeito da sua façanha. Na verdade, a Gazeta da Corte chamou-o de «um triunfo da arte pilotécnica».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pirotécnica, pirotécnica, é o que quereis dizer!  - disse um Fogo-de-Bengala. - Sei que é «pirotécnico», porque vi isso escrito na minha própria caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, mas eu digo pilotécnico  - respondeu o Foguete, num severo tom de voz, e o Fogo-de-Bengala ficou tão esmagado que começou imediatamente a mortificar os pequenos Busca-pés para demonstrar que ele também era uma pessoa de bastante importância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu estava a dizer  - continuou o Foguete -, eu estava a dizer... Que estava eu a dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor estava a falar a respeito de si mesmo  - replicou a Vela Romana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Naturalmente. Sabia que estava a discutir algum assunto interessante, quando fui tão grosseiramente interrompido. Detesto as grosserias e os maus modos de toda espécie, porque sou extremamente sensível. Não há ninguém no mundo tão sensível como eu, estou perfeitamente seguro disto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que é uma pessoa sensível?  - perguntou o Petardo à Vela Romana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma pessoa que, porque tem calos, pisa sempre os pés dos outros - respondeu a Vela Romana, bem baixinho, e o Petardo quase explodiu a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Perdão! De que vos ris?  - perguntou o Foguete.  - Eu não estou a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou a rir porque sou feliz  - replicou o Petardo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É esta uma razão muito egoísta  - disse o Foguete, com raiva -, que direito tendes de ser feliz? Deveríeis pensar nos outros. Na verdade, deveríeis pensar em mim. Penso sempre em mim e espero que todos façam a mesma coisa. Isto é o que se chama simpatia. É uma bela virtude e eu possuo-a em alto grau. Suponhamos, por exemplo, que alguma coisa me acontece esta noite. Que desgraça para todo o mundo! O Príncipe e a Princesa não voltariam mais a ser felizes, toda a sua vida matrimonial ficaria estragada. Quanto ao rei sei que não poderia suportar isso. Na verdade, quando começo a reflectir na importância da minha posição, comove-me até quase chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se quereis agradar aos demais  - exclamou a Vela Romana -, faríeis melhor mantendo-vos seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Certamente  - exclamou o Fogo-de-Bengala, que se achava agora em melhores disposições.  - Isto é simplesmente o senso comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senso comum, ora essa!  - disse o Foguete, indignado.  - Esqueceis que não tenho nada de comum e que sou muito notável. Ora, toda a gente pode ter senso comum, conquanto careça de imaginação. Mas eu tenho imaginação, pois nunca penso nas coisas como são realmente, vejo-as sempre muito diferentes do que são. Quanto a isto de manter-me seco, é que não há aqui, com toda a segurança, ninguém que saiba apreciar a fundo um temperamento emotivo. Felizmente para mim, não me importo com isto. A única coisa que nos sustenta na vida é a convicção da imensa inferioridade dos nossos semelhantes e este é um sentimento que tenho sempre cultivado. Mas nenhum de vós tem coração. Gritais e regozijais-vos, como se o Príncipe e a Princesa não estivessem celebrando as suas bodas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, de facto  - exclamou um pequeno Balão-de-fogo -, por que não? É uma ocasião bastante alegre e quando eu estalar no ar, pretendo contar tudo às estrelas lá em cima. Vereis como brilharão, quando eu lhes falar a respeito da linda noiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! Que conceito vulgaríssimo da vida!  - disse o Foguete.  - Não esperava outra coisa. Não há nada em vós; sois oco e vazio. Ora, talvez o Príncipe e a Princesa possam ir viver num país em que haja um rio profundo, talvez tenham só um filho, um menininho de cabelo louro e de olhos de violeta como o próprio Príncipe. Talvez algum dia saia ele a passear com a sua ama. Talvez a ama adormeça debaixo de um grande sabugueiro; talvez o menino caia no rio profundo e se afogue. Que desgraça terrível! Coitados! Perderem o único filho! É na verdade demasiado terrível! Jamais poderei suportar tal coisa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas eles não perderam o seu único filho  - disse a Vela Romana.  - Não lhes sucedeu nenhuma desgraça absolutamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não disse que lhes sucedeu  - replicou o Foguete.  - Disse que poderia suceder-lhes. Se tivessem perdido o seu único filho, seria inútil dizer alguma coisa a respeito do sucedido. Detesto as pessoas que choram por causa do leite derramado. Mas quando penso que possam perder o seu único filho, sinto-me verdadeiramente muitíssimo afectado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Está-se a ver!  - exclamou o Fogo-de-Bengala.  - De facto sois a pessoa mais afectada que já vi na minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vós sois a pessoa mais grosseira que já conheci  - disse o Foguete -, e não podeis compreender a minha amizade pelo Príncipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ora! Vós nem sequer o conheceis  - resmungou a Vela Romana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu nunca disse que o conhecia  - respondeu o Foguete.  - Atrevo-me a dizer que se o conhecesse, não seria nunca amigo dele. É coisa muito perigosa conhecer-se os amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor faríeis mantendo-vos seco  - disse o Balão-de-fogo.  - Isso é que importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o que muito importa para vós, não tenho dúvida  - replicou o Foguete -, mas chorarei, se me der vontade de chorar. E realmente rebentou em lágrimas, que correram pela sua vareta como gotas de chuva e quase afogaram dois pequenos escaravelhos que pensavam precisamente em fundar uma família e procuravam um bonito lugar seco para nele instalar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deve ele ter um temperamento verdadeiramente romântico  - disse a Roda Catarina -, pois chora, quando não há motivo para chorar. E lançando um profundo suspiro, pôs-se a pensar no caixote de madeira de pinho. Mas a Vela Romana e o Fogo-de-Bengala estavam indignadíssimos e continuavam a dizer: «Charlatão, charlatão!», a plenos pulmões. Eram muito práticos e, quando se opunham a alguma coisa, gritavam: Charlatão. Então apareceu a lua como um maravilhoso escudo de prata e as estrelas começaram a brilhar e chegaram do palácio os sons de uma música. O Príncipe e a Princesa dirigiam o baile. Dançavam tão bem, que os altos lírios brancos espreitavam pela janela e os contemplavam e as grandes papoulas vermelhas abanavam as suas cabeças, marcando o compasso. Naquele momento o relógio bateu as dez horas, e depois as onze, e por fim as doze, e à derradeira batida da meia-noite, todos saíram para o terraço e o rei mandou chamar o Pirotécnico Real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Começai a queimar os fogos de artifício  - disse o rei. E o Pirotécnico Real curvou-se numa profunda vénia e encaminhou-se para o fundo do jardim. Tinha seis ajudantes, cada um dos quais levava uma tocha acesa  na ponta  de uma  longa vara. Foi realmente uma soberba exibição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chiss! Chiss! Chiss!  - começou a Roda Catarina, à medida que girava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bum! Bum! Bum!  - começou a Vela Romana. Depois os Busca-pés dançaram por todo lado e os Fogos-de-Bengala tornaram tudo de uma cor escarlate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adeus  - gritou o Balão-de-fogo, à medida que se elevava, fazendo chover pequenas chispas azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pum! Pum!  - responderam os Petardos, que achavam tudo aquilo muito divertido. Todos conseguiram um grande êxito, excepto o Notável Foguete. Estava tão húmido por ter chorado, que não pôde pegar fogo. O melhor que havia nele era a pólvora, mas esta estava tão molhada pelas lágrimas que se tornara inservível. Toda a sua parentela pobre, à qual não se dignava falar sem um sorriso desdenhoso, produziu grande alvoroço no céu, como se fossem maravilhosas  flores    de ouro,    florescendo em fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bravo! Bravo!  - gritava a corte. E a Princesinha ria de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Creio que me estão a reservar para alguma grande ocasião  - disse o Foguete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É indubitavelmente isso. E olhava em redor com um ar mais orgulhoso do que nunca. No dia seguinte chegaram os operários para colocar tudo de novo no seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Evidentemente é uma comissão  - disse o Foguete.  - Recebê-la-ei com tranquila dignidade. Assim ergueu o nariz para o ar e começou a franzir o cenho com severidade, como se estivesse a pensar num assunto importantíssimo. Mas os homens não lhe deram absolutamente atenção, até deixá-lo para trás. Então um deles avistou-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh!  - gritou ele.  - Que foguete imprestável! E atirou-o por cima de um muro para dentro do fosso  - Foguete imprestável? Foguete imprestável?  - disse ele, enquanto girava no ar.  - impossível! Foguete notável, foi isto o que o homem disse. Imprestável e notável soam muito parecidos. Na verdade, muitas vezes são a mesma coisa. E caiu dentro da lama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é confortável aqui  - observou -, mas sem dúvida é algum balneário elegante e mandaram-me para cá, a fim de que recupere a minha saúde. Os meus nervos estão decerto bastante desgastados e necessito de descanso. Então uma pequena Rã, de olhos brilhantes como jóias e de pele mosqueada de verde, nadou para perto dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou a ver que é um recém-chegado!  - disse a Rã.  - Bem, afinal não há nada como a lama. Dêem-me tempo chuvoso e um fosso e sinto-me completamente feliz. Acreditais que a tarde será húmida? Assim o espero, embora o céu esteja todo azul e  sem nuvens.  Que pena!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Errém! Errém!  - disse o Foguete, começando a tossir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que deliciosa voz tendes!  - exclamou a Rã.  - Na verdade parece o coaxar de uma Rã e o coaxo é, sem dúvida, o som mais musical que existe no mundo. Ouvireis o nosso coral esta noite. Sentar-nos-emos no antigo tanque dos patos junto da casa do fazendeiro e assim que a lua se erguer, começaremos. É tão arrebatador que todos ficam acordados para ouvir-nos. De facto ontem mesmo ouvi a mulher do fazendeiro dizer à sua mãe que não podia pregar olho de noite por nossa causa. É coisa muito agradável saber-se que se é assim tão popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Errém! Errém!  - emitiu o Foguete, com raiva. Estava muito aborrecido porque não podia sair do seu mutismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma voz deliciosa, deveras  - continuou a Rã.  - Espero que ireis ao tanque dos patos. Vou dar uma olhada nas minhas filhas. Tenho seis lindas filhas e receio que o Lúcio possa encontrá-las. Ele é um verdadeiro monstro e não hesitaria em almoçá-las todas. Bem, adeus. Gostei da sua conversa, acreditai- me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E chamais a isto conversa?  - disse o Foguete.  - A senhora falou o tempo todo. Isto não é conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alguém tem de escutar  - respondeu a Rã -, e eu gosto de ficar a cargo da conversa inteira. Poupa tempo e evita discussões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois eu gosto de discussões  - disse o Foguete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não o creio  - replicou a Rã, complacentemente.  - As discussões são extremamente vulgares, porque na boa sociedade toda a gente tem exactamente as mesmas opiniões. Adeus pela segunda vez. Estou a ver as minhas filhas ali adiante. E a pequena Rã afastou-se nadando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora é uma criatura muito irritante  - disse o Foguete -, e muito mal educada. Detesto pessoas que falam de si mesmas, como a senhora, quando alguém quer falar a seu respeito, como eu. Isto é que eu chamo de egoísmo e o egoísmo é uma coisa detestabilíssima, especialmente para alguém com o meu temperamento, pois sou bem conhecido pelo meu carácter simpático. Na verdade, a senhora deveria tomar-me como exemplo; não poderia ter melhor modelo. Agora que tem essa oportunidade, aproveite-a sem demora, porque vou voltar para a corte imediatamente. Sou um grande favorito na corte. De facto, o Príncipe e a Princesa casaram-se ontem em minha honra. Sem dúvida, a senhora nada sabe desses assuntos, pois é uma provinciana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não se dê ao trabalho de falar-lhe  - disse uma Libélula, que estava pousada no alto de um grande junco pardo.  - Ela já se foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, a perda é dela e não minha  - respondeu o Foguete.  - Não vou deixar de falar-lhe, somente porque não me presta ela atenção. Gosto de ouvir-me falar. É um dos meus maiores prazeres. Mantenho frequentemente longas conversas comigo mesmo e mostro-me tão inteligente por vezes que não compreendo uma só palavra do que  estou a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então deveis ser professor de filosofia  - disse a Libélula, e abrindo as suas lindas asas de gaze ergueu-se para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como foi tola não querendo ficar aqui  - disse o Foguete.  - Estou certo de que não tem tantas vezes uma oportunidade igual de cultivar o espírito. Contudo não me importo nem um pouquinho. Um génio como o meu tenho certeza de que será apreciado algum dia. E mergulhou um pouco mais profundamente na lama. Depois de algum tempo uma grande Pata Branca nadou para o lado dele. Tinha as patas amarelas, pés em forma de palmas, sendo considerada uma grande beleza por causa do seu bamboleio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quá, quá, quá  - disse ela.  - Que forma curiosa tem o senhor. Posso perguntar-lhe se o senhor nasceu assim, ou é isto resultado de algum acidente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É completamente evidente que a senhora viveu sempre no campo - respondeu o Foguete -, de outro modo saberia quem eu sou. Contudo, desculpo a sua ignorância. Seria fora de propósito querer que os outros fossem tão extraordinários como a gente é. Sem dúvida ficará a senhora surpreendida ao saber que posso voar para o céu e descer numa chuva de faíscas de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não acho isso coisa muito estimável  - disse a Pata -, uma vez que não posso ver nisso utilidade alguma, mas, se o senhor pudesse arar os campos como o boi, ou puxar uma carroça como o cavalo, ou vigiar os carneiros como o cão pastor, isso, sim, seria alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha boa mulher  - exclamou o Foguete, num tom de voz bastante altivo -, vejo que a senhora pertence à classe baixa. As pessoas da minha posição nunca servem para nada. Temos um encanto especial e isso é mais do que suficiente. Eu mesmo não sinto a menor inclinação por trabalho algum e menos ainda por esta espécie de trabalho que a senhora recomenda. De facto, sempre fui de opinião que o trabalho rude é simplesmente o refúgio de quem não tem outra coisa que fazer na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, bem -, disse a Pata, que era de temperamento pacífico e não discutia nunca com ninguém -, cada qual tem gostos diferentes. De qualquer modo, desejo que o senhor venha estabelecer aqui a sua residência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! nada disso  - exclamou o Foguete.  - Sou um mero visitante, um visitante distinto. O facto é que acho este lugar um tanto aborrecido. Não há aqui nem sociedade nem solidão. Na verdade, é essencialmente suburbano. Voltarei provavelmente à corte, pois sei que estou destinado a causar sensação no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu também pensei em entrar na vida pública  - observou a Pata.  - Há muitas coisas que precisam ser reformadas. Cheguei mesmo a presidir a um comício, faz algum tempo, quando votamos resoluções condenando tudo quanto não nos agradava. Não obstante, não produziram elas grande efeito. Agora ocupo- me de coisas domésticas e   cuido da minha família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nasci para a vida pública e nela figuram todos os meus parentes  - disse o Foguete -, até mesmo os mais humildes. Quando aparecemos, excitamos grandemente a atenção. Desta vez não apareci pessoalmente; mas, quando o faço, o resultado é um espectáculo magnífico. Quanto às coisas domésticas, envelhecem-nos rapidamente e apartam o espírito de coisas mais altas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah! Como são belas as coisas altas da vida!  - disse a Pata.  - Isso lembra-me que estou com muita fome. E desceu nadando a corrente, dizendo: quá, quá, quá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Volte! Volte!  - gritou o Foguete.  - Tenho muita coisa para dizer-lhe. Mas a Pata não lhe deu atenção. «- Fiquei satisfeito por ela ter ido embora»  - disse a si mesmo, «não resta dúvida que o seu espírito é medíocre». E mergulhou um pouco mais profundamente na lama e começou a pensar na solidão do génio, quando, de repente, dois meninos de blusas brancas desceram a correr a margem, com uma chaleira e alguns molhos  - Deve ser uma deputação  - disse o Foguete, tentando mostrar-se muito composto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh!  - gritou um dos meninos.  - Olha aquela vareta do lixo. É estranho que tenha vindo parar aqui. E tirou o Foguete de dentro do fosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vareta do lixo!  - disse o Foguete -, impossível! Vareta do luxo, foi o que ele disse. Vareta de luxo é um belo cumprimento. De fato, ele toma-me por um personagem da corte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos pô-la no fogo!  - disse o outro menino.  - Ajudará a ferver a chaleira. De modo que empilharam os cavacos e puseram o Foguete por cima e acenderam o fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isto é magnífico!  - exclamou o Foguete.  - Vão soltar-me em plena luz do dia, de modo que todos possam ver-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Iremos dormir agora  - disseram eles -, e quando acordarmos, a chaleira já terá fervido. E, deitando-se sobre a relva, fecharam os olhos. O Foguete estava muito húmido, de modo que levou muito tempo para incendiar-se, afinal, porém, o fogo pegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora vou partir!  - gritou ele, e estirou-se e empertigou-se todo.  - Sei que irei subir mais alto que as estrelas, mais alto do que a lua, mais alto do que o sol. De facto, subirei tão alto que... Chi! Chi! Chi! e ele subiu direito no ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Delicioso!  - exclamou ele.  - Continuarei a subir assim para sempre. Que triunfo eu sou! Mas ninguém o viu. Então começou a sentir uma estranha sensação de formigueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora vou explodir  - gritou.  - Incendiarei o mundo inteiro e farei tal barulho que ninguém falará a respeito de qualquer outra coisa durante um ano inteiro. E, na verdade, explodiu. Pam! Pam! Pam! fez a pólvora. A pólvora não podia fazer outra   coisa. Mas ninguém o ouviu, nem sequer os dois meninos que dormiam profundamente. Então nada mais restou do Foguete senão a vareta e esta caiu nas costas de uma Gansa que estava dando um passeio ao lado do fosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Céus!  - exclamou a Gansa.  - Está a chover varetas! E correu para dentro d'água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sabia que haveria de causar grande sensação  - ofegou o Foguete. E expirou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-5185801730592820618?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/5185801730592820618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-notavel-foguete.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5185801730592820618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/5185801730592820618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/o-notavel-foguete.html' title='O NOTAVEL FOGUETE'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-4253997970134808891</id><published>2009-01-27T21:13:00.001-02:00</published><updated>2009-01-27T22:13:23.449-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A ESFINGE SEM SEGREDOS'/><title type='text'>A ESFINGE SEM SEGREDOS</title><content type='html'>A ESFINGE SEM SEGREDOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA ÁGUA FORTE&lt;br /&gt;Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que encheu-me de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostava dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para onde vamos? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante   (1)e achava-se envolta em ricas peles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue  (2)  e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno   dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Descobriu-a então? - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguel. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que estava a fazer ali?» - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tem de responder-me» - continuei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou terrivelmente pálida e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não fui encontrar ninguém».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Já a disse» - replicou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim - respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os aluguéis estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Morreu» - respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acredito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então por que ia Lady Alroy ali? - Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou convencido disto - repliquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem sabe? - disse afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas: &lt;br /&gt;1 vidente&lt;br /&gt;2 Minha bela desconhecidatisfação aquele encontro e apertamos as mãos&lt;br /&gt;cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostava dele imensamente. Era tão bonito, tão&lt;br /&gt;comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não&lt;br /&gt;falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua&lt;br /&gt;franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma&lt;br /&gt;coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais&lt;br /&gt;inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares.&lt;br /&gt;De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem&lt;br /&gt;compreendidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de&lt;br /&gt;qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para onde vamos? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á&lt;br /&gt;tudo a respeito da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos&lt;br /&gt;misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante   (1)e achava-se envolta em ricas peles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não&lt;br /&gt;podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos,&lt;br /&gt;uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era&lt;br /&gt;demasiado subtil para ter realmente encanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele&lt;br /&gt;levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa&lt;br /&gt;cadeira de braços, contou-me a seguinte história:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos&lt;br /&gt;e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou&lt;br /&gt;aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que&lt;br /&gt;lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia&lt;br /&gt;seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar&lt;br /&gt;perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma&lt;br /&gt;belle inconnue  (2)  e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois,&lt;br /&gt;estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy.&lt;br /&gt;Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de&lt;br /&gt;renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos&lt;br /&gt;sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças&lt;br /&gt;francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que&lt;br /&gt;alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível&lt;br /&gt;atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se&lt;br /&gt;retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para&lt;br /&gt;ver se alguém estava perto de nós e depois disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é&lt;br /&gt;que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses&lt;br /&gt;cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos&lt;br /&gt;matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que&lt;br /&gt;Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito&lt;br /&gt;reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra&lt;br /&gt;parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que&lt;br /&gt;estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne&lt;br /&gt;a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se&lt;br /&gt;perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de&lt;br /&gt;escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua&lt;br /&gt;Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que&lt;br /&gt;não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era&lt;br /&gt;como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em&lt;br /&gt;outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante&lt;br /&gt;segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a&lt;br /&gt;biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim&lt;br /&gt;e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava&lt;br /&gt;então... em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério&lt;br /&gt;perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Descobriu-a então? - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar&lt;br /&gt;com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe,&lt;br /&gt;mora em Regent's Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos&lt;br /&gt;miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito&lt;br /&gt;apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e&lt;br /&gt;entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma&lt;br /&gt;espécie de prédio de aluguel. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso.&lt;br /&gt;Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de&lt;br /&gt;espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em&lt;br /&gt;traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre&lt;br /&gt;usava. Era de uma beleza perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que estava a fazer ali?» - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Tem de responder-me» - continuei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou terrivelmente pálida e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não fui encontrar ninguém».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Já a disse» - replicou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa&lt;br /&gt;da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em&lt;br /&gt;companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a&lt;br /&gt;notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de&lt;br /&gt;congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão&lt;br /&gt;loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim - respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma&lt;br /&gt;mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto&lt;br /&gt;a senhora e como os aluguéis estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Morreu» - respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus&lt;br /&gt;por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela&lt;br /&gt;sempre vinha sozinha e não via ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a&lt;br /&gt;mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo&lt;br /&gt;aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acredito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então por que ia Lady Alroy ali?&lt;br /&gt;- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério.&lt;br /&gt;Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína.&lt;br /&gt;Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou convencido disto - repliquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem sabe? - disse afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt;1 vidente&lt;br /&gt;2 Minha bela desconhecida&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;OSCAR WILDE&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5012604193329843708-4253997970134808891?l=oscarwilde2k.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/feeds/4253997970134808891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/esfinge-sem-segredos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4253997970134808891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5012604193329843708/posts/default/4253997970134808891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://oscarwilde2k.blogspot.com/2009/01/esfinge-sem-segredos.html' title='A ESFINGE SEM SEGREDOS'/><author><name>Pamella</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5012604193329843708.post-1240362195954266982</id><published>2008-05-26T21:50:00.000-03:00</published><updated>2009-05-26T21:52:36.742-03:00</updated><title type='text'>LINKBACK</title><content type='html'>&lt;a href="http://cadastro-gratis.bhsite.com.br"&gt;Guia de Sites na Web - Cadastro Gratis&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://directorio.esquillo.com/" title="Esquillo Directorio"&gt;Estou no Esquillo Directorio&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://diretorio.buscandotudo.com"&gt;Buscando TUDO&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.acheiaqui.com.br"&gt;Achei Aqui&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;font face="Arial, Helvetica" size="1"&gt;&lt;a href="http://www.astrolabio.net" onclick="this.href='http://www.astrolabio.net/buscador';" target="_blank"&gt;&lt;img border="0" src="http://www.astrolabio.net/imagenes/horoscopo-juegos-casino.gif" width="120" height="60" alt="horoscopo, casino, juegos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br&gt;&lt;/font&gt;&lt;font face="Arial, Helvetica" style="font-size: 7pt"&gt;&lt;a href="http://www.mundotests.com"&gt;&lt;br /&gt;&lt;font color="#C0C0C0"&gt;tests&lt;/font&gt;&lt;/a&gt;&lt;font color="#C0C0C0"&gt; 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